Pressão de todos os lados sobre demissões da Embraer

•Fevereiro 28, 2009 • Deixe um comentário

Foi anunciado nesta sexta-feira (27/02) que a Embraer, fabricante brasileira de aviões, pretende recorrer junto ao Tribunal Regional do Trabalho sobre a liminar que suspendeu as demissões realizadas pela empresa. A justificativa seria que as demissões foram feitas de acordo com as “prescrições” da lei trabalhista.

Demissões são atribuídas a queda nas vendas

Assim como vem acontecendo no mundo,  a Embraer foi só mais uma das que tiveram de apertar os cintos devido aos grandes prejuízos da crise. Ela cortou 4.200 funcionários. A decisão foi anunciada no dia 19 de fevereiro pelo presidente da fabricante de aviões, Frederico Fleury Curado. Ele aproveitou e apontou a crise mundial como a grande causa. Houve uma queda na demanda de aeronaves, o que, segundo ele, não seria uma situação passageira.

Assista:

As demissões representam cerca de 20% do quadro total de 21.362 empregados. A maioria dos cortes está acontecendo na mão-de-obra operacional, administrativa e lideranças, incluindo a ‘eliminação’ de um nível hierárquico de sua estrutura gerencial.

As estimativas para 2009 também foram revistas. A empresa calculava entregar 270 aeronaves, com receita prevista de US$ 6,3 bilhões, além de usar US$ 450 milhões em investimentos. Os novos números apontam 242 aeronaves no período, com uma receita de US$ 5,5 bilhões e US$ 350 milhões em investimentos.

Fogo Cruzado

De acordo com a Justiça do Trabalho, as demissões em massa não poderiam acontecer sem antes a Embraer negociar com os sindicatos. Sob este alicercek, o desembargador Luís Cândido Martins Sotero da Silva, presidente do TRT (Tribunal Regional do Trabalho) da 15ª Região (Campinas), colocou um prazo até a última quinta-feira (26/02) para que as demissões fossem suspensas.

O juiz também determinou que a empresa deve apresentar seus balanços patrimoniais e demonstrações contábeis para que seja justificado tal corte no quadro de funcionários.

Enquanto isso…

…os demitidos, maiores interessados neste impasse, realizaram ao longo da semana passeatas em São José dos Campos. Nesta sexta-feira, junto com a Força Sindical e a Conlutas, eles realizaram mais uma ação de protesto, próximo à sede da fábrica.

Passeatas tiveram participação da Força Sindical e Conlutas

Em Brasília (ou em alguma parte do mundo)

Velho de guerra em lutas sindicais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro para a diretoria da Embraer seu descontentamento. Segundo ele, poderia sido planejada uma ação, sendo que questões internacionais levaram a empresa a demitir. Lula afirmou também que as demissões poderiam ter sido feitas de “uma forma mais humana”.

Opine você também:

Bispo sofre holocausto da mídia

•Fevereiro 28, 2009 • Deixe um comentário

Fique bem claro que aqui não será feita a justiça de ninguém, mas se o bispo tinha dúvidas sobre o massacre aos judeus… Sofre agora um verdadeiro holocausto, por meio das torturas e exterminações impostas pela mídia. Isso mostra apenas uma coisa: o cuidado com o que cada um deve ter com suas próprias opiniões e também pensar antes sobre o grande impacto (num efeito em cadeia) que isso pode provocar.

Fique por dentro:

Desfecho?! - Chegou a Londres, na última quarta-feira (25/02) o bispo britânico Richard Williamson. Ele foi obrigado a deixar a Argentina sob ameaças de uma eminente expulsão por parte do Governo portenho. Para quem não acompanhou, ele declarou que nunca existiu nenhum holocausto, genocídio e muito menos a morte de 6 milhões de judeus.

O bispo também negou que as câmaras de gás nazista pudesse ter sido utilizadas para exterminar pessoas durante a Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, os bispos católicos da Inglaterra e Gales condenaram as afirmações de Williamson, classificando-as “totalmente inaceitáveis”.

A revolta criada é tão grande, que um porta-voz da Conferência de bispos católicos disse não saber onde o religioso ficará no Reino Unido.

Interaja:

Crise, o combustível do jornalismo

•Fevereiro 25, 2009 • Deixe um comentário

A palavra ‘crise’ ganhou status de celebridade no Jornalismo brasileiro.

Jornal português estampando a crise

Diário português: tendência é mundial?

Hoje, não se escreve, narra, mostra, enfim, não se faz jornalismo sem ela.

Matéria de carnaval: a palavra crise aparece; de empresas: a crise está lá; de esporte: a crise diz “oi”; e assim vai…

Até aí, normal. O jornalismo é mesmo movido pela tendência informativa do momento.

Porém, os clichês que surgem no texto costumam ser péssimos: “Em tempos de crise…” costuma anunciar um novo investimento que acontece mesmo com a recessão, acaba sendo similar ao “Mesmo com a crise…”; “A crise financeira mundial” geralmente é usada para contar a quebra de mais uma empresa ou instituição financeira; ou então o famoso “… foi mais um dos atingidos pela crise financeira mundial” que se usa para dar ar de monstro à recessão.

Algumas atitudes, entretanto, mostram certo apreço da empresa de comunicação para com os seus consumidores. A infografia é uma delas. (Veja, por exemplo, esta do Estadão.)

Gráficos multimídia com informação ajudam a sair do marasmo a que os textos jornalísticos nos enviam.

Em todo caso, uma boa pauta nos tempos atuais não deve conter necessariamente as palavras “crise” “econômica” e “mundial”. Há vários outros caminhos a se explorar.

Forte chuva seca lago na Aclimação

•Fevereiro 25, 2009 • Deixe um comentário

A previsão de tempo seco e abafado até, pelo menos, domingo (01/03) fora desmentida. Quem acordou na terça-feira (24/02) pode ver a leve chuva que cobria as cidades da Grande São Paulo e Baixada Santista. Vários pontos de alagamentos registrados em diversas áreas. Para variar o túnel do Anhangabaú ficou interditado por mais de uma hora. Até aqui o procedimento normal de todo noticiário.

Mas pasmem… Na tarde de segunda-feira (23/02), o lago do Parque da Aclimação, em São Paulo, simplesmente secou.

O motivo de tal “fenômeno” foi um problema no canal artificial. Ele controla o nível da água, que entra pelo córrego Pedra Azul.

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O equipamento rompeu devido a forte chuva. Com isso, peixes, parte das aves e anfíbios, que viviam por ali, morreram. O lago, de cerca de 33 mil metros quadrados, secou entre as 16h40 e as 17h30. Estima-se que cerca de 70 milhões de litros de água foram drenados.

Porém, a Prefeitura de São Paulo já trabalha na recuperação do local.

Festa

Mocidade Alegre leva o caneco no Carnaval de São Paulo. Em uma disputa apertada, a escola que falou sobre o coração levou a melhor sobre a Vai-Vai (2º lugar), apenas 0,5 ponto atrás. A escola heptacampeã usou de grande colorido na avenida, além de ícones como o famoso Moulin Rouge para se valer dos diversos significados de seu tema.

Escola que recentemente levou o título em 2007, tornou-se heptacampeão do Carnaval de São Paulo

Enquanto isso na Sala de Justiça…

Barack Obama afirma, convicto, que os Estados Unidos sairão ainda mais forte da crise.

Haja confiança e crença para mudar o quadro da recessão!

Segundo ele, uma equipe analisa possíveis cortes para reduzir o déficit orçamentário, estimado em US$ 1,3 trilhão. Traçando, assim, como meta “o final dos desperdícios”.

A euforia do presidente talvez se deva ao fato do fechamento em alta de todas as bolsas americanas no pregão dessa terça-feira (24/02).

Como sempre… o Brasil espera sentado por uma resolução.

Oh Fu#ck!

Pesquisa feita por americanos revela: adolescentes que escutam músicas de conteúdo sexual depreciativo têm uma vida sexual mais ativa. Ao todo, 711 jovens entrevistados, na faixa etária dos 13 aos 18 anos.

Foi feito um cruzamento de dados entre vida sexual e hábitos musicais. Daí surgiu o fato de que todos que ouviam músicas com versos sobre sexo explícito e agressivo regularmente (cerca de 17 horas por semana) tinham o dobro das chances de fazer mais sexo do que os ouvintes de apenas 2,7 horas no mesmo período.

Imagina se a tendência se copia por aqui… Haja preservativo para controlar o ímpeto do Creu!!!

O carnaval reina no país do futebol

•Fevereiro 23, 2009 • Deixe um comentário

Holofotes voltados para o red carpet… É! Pode não parecer, mas ao mesmo tempo em que rolava o desfile na Sapucaí, o maior prêmio (ou pelo menos o mais pomposo) do cinema mundial acontecia em Hollywood. Fora os amantes da sétima arte e os bem informados, há fortes dúvidas de que mais alguém sabia sobre a cerimônia de entrega do Oscar.

E este ano, quem dominou a premiação foi Quem quer ser milionário, que faturou oito estatuetas, em uma produção inglesa rodada na Índia. Os tempos realmente não são mais os mesmos… (Ainda bem!). Venceram também: Sean Pean (ator), Kate Winslet (atriz), Penélope Cruz (atriz coadjuvante).

E a homenagem da noite ficou por conta do prêmio de melhor ator coadjuvante cedido a Heath Ledger. O ator, que foi encontrado morto em seu apartamento o ano passado (2008), fez seu último papel como Coringa em Batman – O Cavaleiro das Trevas, o que lhe rendeu esta indicação.

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Enquanto isso…

- Quesito: Alegoria

…em fevereiro, quem reina no país do Futebol é o Carnaval. Tudo corre muito bem na terra das maravilhas de Alice – a crise passa longe dos olhos tupiniquins e o ibope do líder máximo da nação nunca esteve tão alto.

Quem viu o Brasil em outros tempos, não botaria fé na segurança da economia nacional. Bem… nem tudo é o que parece. Mas é tempo de festa, e como aqui ainda é assim – tudo começa a funcionar depois da quarta-feira de cinzas – até a crise.

Por outro lado…

- Quesito: Animação

Incrível é ver como o samba deixa o Brasil em transe. Tudo parado. Na manhã do último domingo (22/02), pude presenciar mais de 80 mil pessoas atrás de 11 trios elétricos no desfile do maior bloco carnavalesco de São Vicente – o Ba-baianas Sem Tabuleiro. Há mais de 70 anos, homens vestidos de mulher andam na contramão levando o carnaval pelas ruas da Primeira Cidade do Brasil.

Eram 10 horas da manhã e nem 500 pessoas estavam na concentração em frente ao estádio Mansueto Pierotti. Num piscar de olhos toda uma multidão já se aglomerava e entoava as músicas tocadas pelos carros de som. As ruas pareciam estreitas para tanta gente que passava e a alegria tomou contou ao longo do percurso, até a dispersão na praia do Gonzaguinha.

Apoteose?!

…passada a euforia, basta esperar pelo “Abre alas” do verdadeiro ano de 2009.

O Brasil do câncer

•Fevereiro 23, 2009 • Deixe um comentário

Sob a acusação de abuso do poder econômico e político e, também, uso da máquina do Estado para se reeleger, Cássio Cunha Lima, do PSDB, foi cassado do cargo de governador da Paraíba pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na semana passada. A decisão se estendeu ao vice, José Lacerda Nero, do DEM.

Com a cassação, José Maranhão, do PMDB, que estava no Senado e havia sido o segundo colocado na última eleição para governador da Paraíba, assumiu o governo do estado. Mas… – e esse é o nosso país – …ele enfrenta oito processos no mesmo TSE, referentes tanto às eleições de 2002 como às de 2006.

As ações o acusam de abuso do poder econômico e político, compra de votos, conduta vedada e uso indevido de meio de comunicação. Ou seja, ele corre o mesmo risco de seu antecessor: ser cassado.

(Para falar a verdade, quem corre risco somos nós.)

Como assumiu as funções de governador, José Maranhão abriu uma vaga a uma cadeira do Senado. Esta será ocupada pelo empresário Roberto Cavalcanti. E, advinha? Ele enfrenta, pelo menos, duas ações penais em que é suspeito de ter causado prejuízo aos cofres públicos.

Cavalcanti responde a processos na Justiça Federal por corrupção ativa e uso de documentos falsos. Por ter foro privilegiado, ele será julgado pelo Supremo Tribunal Federal.

Em virtude disso, a lista suja deveria existir ou não?

Não, esse é o Brasil do câncer. Responder processo no mundo político brasileiro é regra, não exceção.

Ser e Ter

•Fevereiro 22, 2009 • Deixe um comentário

Quem é você?
Não!
Não perguntei o que tens
e sim o que és.
Seria você
mais um elemento do mundo
como um todo,
um todo separado por ilusões…
- Imagem do que não és.
Nem se quer
me leva a pensar,
muito menos refletir
sobre o que realmente somos.
Mundo este – perdido…
…e achado em meio um emaranhado de consumismos.
- Possessões estas que significam bem mais
e simplesmente refletem o novo sentido
do que é ter e não ser.
Hoje,
ninguém mais é,
nada é tudo,
somos o que temos,
mas não temos o que somos…
Eis que num passe de mágica
todo brilho e glamour de possuir
torna-se o desencanto de não mais ser…

Obama amenizando o terrorismo de Bush?

•Fevereiro 22, 2009 • 1 Comentário

A herança deixada pelo ex-presidente americano George W. Bush no combate ao terror causará problemas ao atual presidente  Barack Obama. As sangrias e o ódio anti-americano ganharam força o suficiente, na passada de Bush pelo poder; os países governados por regimes terroristas podem desacreditar de qualquer tentativa de mudança da visão política norte-americana que viria a ocorrer em seus espaços de tensão e guerra.

Bush fez tudo errado. Primeiramente, divulgou o seu “pensamento de segurança” como principal atividade de Estado. Como argumenta Giorgio Agamben em “Sobre segurança e terror”, o pensamento de segurança dá combustíveis à criação do terror e, doravante, o sustenta como força mundial.

(Aliás, no artigo, a diferença entre pensamento de segurança e pensamento de disciplina é explicada de maneira espetacular; pois enquanto a disciplina está preocupada em produzir ordem, a segurança quer regular a desordem. Então, o pensamento de segurança é supor que “tudo está errado e deve ser combatido” – fato que dá mais combustível às guerras.)

Ou seja, Bush falhou ao tentar mostrar e divulgar a segurança de seu país como uma joia rara e imbatível. Tanto o fez, que os terroristas destruíram as torres gêmeas. E qual a reação americana? Combater. Aconteceu exatamente como as palavras de Agamben nos mostra: “Um estado que tem a segurança como a sua única tarefa e fonte de legitimação é um organismo frágil; ele sempre pode ser provocado pelo terrorismo e virar terrorista também”. E os Estados Unidos viraram.

Atacaram e bombardearam Iraque e Afeganistão e produziram ódio o suficiente para melar as relações pacíficas que Obama quer propor agora.

  • Veja infografia do canal português Sic sobre os 5 anos de ocupação do Iraque
  • Mas, de qualquer forma, o atual presidente dos Estados Unidos ainda pode mudar a situação e a crescente desunião do mundo. Isso depende de como ele vai agir, e não exatamente de sua postura retórica.

    O caminho do combate ao terrorismo não pode ser a proclamação do combate ao terror, pois assim seria o mesmo que proclamar o terror. Mas deveria ser a ajuda dos países mais ricos aos mais pobres na conquista da disciplina que falta ao mundo.

    Sobretudo agora, quando Obama demonstra querer um país mais tolerável com as idiossincrasias de cada país, essa disciplina pode ser alcançada.

    Reflexo da mudança: eles agora têm nome

    •Dezembro 3, 2008 • Deixe um comentário

    A recente mudança no cargo de editor-chefe do jornal A Tribuna (Márcio Calves foi substituído por Wilson Marini) provocou mudanças das mais notáveis e louváveis no jornal diário. Este passou a retratar mais as cidades da Baixada Santista e deixar de lado, para os jornais ditos nacionais, a tarefa de retratar assuntos também ditos nacionais. Ou seja, a região passou a ser valorizada. Paralelamente, outra mudança de destaque diz respeito às matérias: agora são assinadas.

    Escondidos atrás de uma alcunha chamada “Da Redação”, um jornalista não tem um nome a zelar. Ele não toma todos os cuidados, não busca o melhor: a culpa por algo errado recai sobre a redação inteira. Era assim que ocorreria em A Tribuna. As matérias dificilmente eram assinadas – fato este que dá livre-arbítrio para o jornalista errar: na pior das hipóteses a culpa é da redação.

    Os maus Ghosts Writers, aqueles que escrevem, mas não dão seus nomes, não dão a cara à tapa, gozam do prestígio do jornal quando ele acerta, porém escondem-se de seu erro, pois este sempre é grupal (nunca de um jornalista, mas do coletivo deles, da redação).

    Essa mudança também passa a valorizar melhor o trabalho de apuração do bom repórter. Ele busca o máximo de informações possíveis, as passa na melhor forma e seu nome, antes ocultado por um ‘Da Redação’, está lá: ele se vê no jornal. O que antes era injusto passa a ser justo.

    Mas, sem dúvida nenhuma, o melhor reflexo que tem essa mudança no jornal santista é para os leitores. Estes devem saber que a matéria escrita é apenas uma representação da realidade, nunca ela completa e em si mesma, mas uma aproximação do fato objetivo; tendo em vista isso, o leitor precisa saber que atrás da realidade dita objetiva em uma notícia há uma representação que passa por todos os sentimentos e formação cultural do repórter.

    Sabendo disso, ele passa a escolher melhor e a criar afinidades de acordo com o texto do repórter. Quantos leitores não lêem Clóvis Rossi da Folha de S. Paulo porque ele é o Clóvis Rossi? Quantos não lêem Jamil Chade de O Estado de S. Paulo porque ele é o Jamil Chade? A Tribuna também pode ter a chamada grife do repórter.

    Enfim, ganha o leitor, o repórter e o jornal, já que este passa a ser feito por pessoas, por um acaso trabalhando em conjunto, e não construído por um grupo de fantasmas acobertados pelo ‘Da Redação’.

    Breve resumo da Psicanálise de Winnicott

    •Dezembro 2, 2008 • Deixe um comentário

    Exercendo a função de pediatra, Donald Woods Winnicott desenvolveu sua psicanálise com base nas relações familiares entre a criança e o ambiente. Todo ser humano, de acordo com Winnicott, tem um potencial para o desenvolvimento. Entretanto, para tornar esse potencial como algo real, o ambiente se faz necessário. Inicialmente, esse ambiente é a mãe – ou alguém que exerça a função materna – e apoiada especialmente pelo pai.

    Para se chegar ao desenvolvimento completo, a criança passa por fases de dependência rumo à independência – até chegar na fase adulta e estabelecer um padrão que seja uma junção desafiadora entre copiar os pais e formar uma identidade pessoal.

    Segundo a psicanalista Maria José Ferreira Mota, que tem como orientação principal a psicanálise winnicottiana, há principalmente três motivos para o pensamento de Winnicott sobre a formação do ‘eu’ se apoiar na família: 1) esta tem (ou teria…) uma disposição e condição maior de favorecer o desenvolvimento; 2) supõe-se que uma família seja uma constante que não varie muito, essencial para uma criança que precisa, especialmente no seu início, que o seu entorno seja constante, regular, amigável e não caótico; 3) a família costuma ter, embora nem todas tenham, uma condição maior de tolerância para lidar com períodos em que o ambiente é testado, em que a criança precisa experimentar algum tipo de confronto.

    Mas, lembrando, para se chegar a esse desenvolvimento completo, é necessário um ambiente agradável e, daí, surge o conceito winnicottiano de good enough mother (mãe suficientemente boa). Não é uma mãe perfeita, porque essa não existe. Mas é a mãe que sabe a hora certa para favorecer a ilusão no bebê e, logo após, a desilusão.

    A ilusão é criada quando a mãe se adapta às necessidades do bebê e este projeta o que ele mesmo criou daquilo de que ele necessita. Aliás, o bebê percebe a mãe dele como sendo parte sua: os dois são um só – o que dá sustento ao pensamento de dependência para com a mãe. Winnicott escreveu em O Brincar & a Realidade: “A mãe, no começo, através da adaptação quase completa, propicia ao bebê, a oportunidade para a ilusão de que o seio dela faz parte do bebê, de que está, por assim dizer, sob o controle mágico do bebê.” É este o período de dependência absoluta, que vai de 4 a 6 meses. É importante notar que o bebê não tem percepção dessa situação, mas adquire uma sensação de onipotência.

    Logo após esse período, é tarefa da mãe desiludir a criança, não atendendo tudo tão prontamente. Ou seja, a mãe, progressivamente, começa a fazer com que a criança suporte algumas frustrações. De confrontos em confrontos, o desenvolvimento do ego da criança será facilitado e ela passa a esperar certas atitudes que anteriormente queria na hora.

    Na desilusão, os objetos transicionais são fundamentais. Eles são, segundo Maria José, a primeira possessão não-eu. Ou seja, são objetos, geralmente macios, que o bebê adota e faz o uso que quiser. São chamados de transicionais, pois estariam no espaço entre o mundo interno e o externo, sendo os dois ao mesmo tempo e fazendo parte dos dois. É uma etapa importante, pois indica que o bebê está a lidar com a separação da mãe, saindo de um estado uno em relação a ela e percebendo o mundo de fora, sem deixar de manter um elo entre os dois mundos. O valor do objeto transicional é tão importante, que quando os pais vem a saber de seu valor, até levam consigo em viagens. É o caso, por exemplo, de um cobertor. A mãe permite que fique sujo e até mesmo mal-cheiroso, pois sabe que se lavá-lo pode destruir o significado e o valor do objeto para a criança. E, quando eles o usam para dormir, caso seja lavado, a criança pode ter dificuldades maiores para cair no sono.

    O apego a esses objetos é notado, também, em momentos de solidão, conforme escreveu Winnicott em O Brincar & a Realidade: “Os padrões estabelecidos na tenra infância podem persistir na infância propriamente dita, de modo que o objeto macio original continua a ser absolutamente necessário na hora de dormir, em momentos de solidão, ou quando um humor depressivo ameaça manifestar-se”. Não há diferença, segundo Winnicott, digna de nota entre meninos e meninas em seu uso de objetos transicionais.

    Já na adolescência, o pai começa a ter um papel importante no ambiente familiar, por causa de sua autoridade. Entretanto, um adolescente já, obviamente, passou pela fase de criança, e se nessa não fora propiciado um ambiente favorável, é possível que ele reviva situações emocionais que não ficaram resolvidas.

    Quando a fase de frustrações não foi proporcionada no desenvolvimento infantil, o adolescente passa a atentar ainda mais o juízo dos pais, das autoridades todas: ele quer que o ambiente faça o que não fez anteriormente e essa seria a origem da tendência anti-social como sinal de esperança.

    As psicoses podem se manifestar na fase adulta também. Vale ressaltar que, para Winnicott, somente o ambiente familiar é o responsável por formar um ser humano que sinta que a vida vale a pena ser vivida. Os problemas psíquicos seriam, portanto, resultados de falhas graves nas etapas iniciais do desenvolvimento.

    O papel do psicanalista nesse contexto, em que falhas iniciais de grande significado ocorreram na vida do paciente, é o da recriação de um processo inicial da vida, para que o paciente se sinta em um ambiente terapêutico especial e consiga regredir a fases iniciais de dependência, possibilitando que seu desenvolvimento emocional seja, finalmente, completado. Para o analista, é uma situação de muita vulnerabilidade e só se recomenda (segundo Winnicott) que aconteça com psicoterapeutas experientes e já bastante treinados em situações mais comuns de análise.

    Para se regressar à fase do desenvolvimento inicial do paciente, o analista fica sendo como se fosse a mãe e nele são projetados dos mais diversos afetos que têm a ver com essa relação. Entretanto, ele não se comportará como tal, mesmo fazendo parte do processo terapêutico, do ponto de vista do analista, que ele se sinta como várias personagens do mundo do paciente e em várias situações. “Lidar bem com isso é que é a arte”, explica a psicanalista.

    Ela ainda esclarece que usar Winnicott é aceitar algumas idéias básicas da Psicanálise – já que ele era psicanalista – como a existência do inconsciente, a idéia de transferência, entre outras. Mas, a diferença é que, segundo Winnicott, toda a psicanálise freudiana é baseada na idéia de que o paciente teve um início de vida em que as coisas correram bem o bastante para que, na pior das hipóteses, ele tenha desenvolvido uma neurose clássica – e isso, de acordo com Winnicott, nem sempre é verdade. “A Psicanálise clássica – que é como ele chama – é para pacientes que tiveram um início de vida que os capacitaram a desenvolver o complexo de Édipo. Entretanto, algumas pessoas tiveram, no seu início, condições que dificultaram seu desenvolvimento emocional e necessitariam de outro ambiente.” O sonho, para Winnicott, não tem um papel especial, relevante, como tem para Freud.

    A visão de Winnicott em relação às crianças se deve ao fato de ele ter sido pediatra. Durante a Segunda Guerra Mundial, aliás, Winnicott teve grande atuação junto às crianças, pois ele ficou encarregado de acolhê-las fora de Londres – pois havia o temor da cidade ser bombardeada e as pessoas achavam que a as crianças deviam sair dali para poderem preservar o futuro do país. “Ora, justamente quando as crianças foram separadas de seus pais, como é de se supor, mesmo nas melhores condições (o que nem sempre era o caso), essa situação propiciou que aparecessem todos os problemas emocionais – dos quais Winnicott se encarregou.”

    Vida

    Nascido em 7 de abril de 1896, de uma família metodista em Plymounth, na Inglaterra, Winnicott teve sempre uma vida muito ocupada. Graduado em Medicina, especializando-se em Pediatria, e mais tarde, em Psicanálise, ele desenvolveu o interesse entre a relação de mãe e filho.

    Por ter o dom de falar bem, ele fez incontáveis palestras e aulas, sendo convidado para expor suas idéias em público, além de passar horas no trabalho clínico. No fim da Segunda Guerra Mundial, suas palestras foram transformadas em folhetos.

    Entre 1939 e 1962, Donald participou de cerca de 50 programas de rádio, convidado pela BBC, para falar com pais e mães sobre diversos assuntos, como conselhos, adoção, ciúmes, filho único e presença do pai na educação dos filhos. Até hoje, muitas pessoas ficam maravilhadas de ver a capacidade que o psicanalista tinha em compreender as crianças.

    Além de escrever muitos livros, Winnicott tinha uma mania na qual não conseguiu se libertar: escrever cartas. Ele escrevia cartas para tudo e para todos. Todas as palestras que seus colegas de trabalho ministravam, Donald escrevia uma carta de congratulações. Quando faleceu, sua esposa divulgou muitas cartas inéditas que podem ser lidas em português no livro “O gesto espontâneo”.

    Neste livro aliás, consta uma preocupação de Winnicott referente à política de conciliação da Inglaterra com a Alemanha de Hitler. Numa carta endereçada à mulher do primeiro ministro britânico, Mrs. Chamberlain (“já que o primeiro ministro, Neville Chamberlain, não tem tempo de responder as perguntas, poderia a senhora tentar respondê-las?”), Winnicott enterpela-o sobre suas posições democráticas: “por que o primeiro ministro nunca menciona os judeus? Não estou pedindo a ele que seja pró-judeus, mas quero saber com certeza se ele não é secretamente anti-judeus… no momento, parece que estamos compartilhando secretamente a insanidade antisemita dos alemães, e não é a isso que queremos que nossos lideres nos conduzam”. Este fato mostra o espírito atuante de Winnicott.

    Winnicott foi, por duas vezes, presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise.