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Ateus, saiam do armário!
maio 24, 2010, 11:39 am
Filed under: 1, Religião?

Em Deus, um delírio Richard Dawkins faz referência à aceitação homossexual para que ateus sintam orgulho de não acreditar em Deus e ter uma alternativa lógica para a religião: a Teoria da Evolução de Darwin

Se você é um religioso convicto, provavelmente vai ignorar esse texto ou não chegará ao final dele. E os motivos são três palavras chaves no título e subtítulo: ateus, Richard Dawkins e evolução. A ateíssima trindade evolucionista é o que envolve o livro Deus, um Delírio (Companhia das Letras, 2007).

Mas — muitos se perguntam — o que leva um biólogo como Dawkins, que já foi considerado uma das pessoas mais inteligentes do mundo, a escrever um livro que ataca a religião e, a priori, não converte os religiosos em ateus? O próprio autor responde no prefácio: “… o coro dos descrentes é bem maior do que muita gente imagina, sobretudo nos Estados Unidos. Mas, de novo, sobretudo nos Estados Unidos, é em grande parte um coro ‘no armário’, e precisa desesperadamente de incentivo para sair dele”.

Além dessa, há outra razão para o livro: conscientizar os ateus sobre a evolução. A argumentação de Dawkins, baseada nas evidências da ciência e principalmente na Teoria Evolucionista de Darwin, não dá espaço às críticas inconsistentes. E, com um sarcasmo peculiar, o primeiro tema a ser metralhado por ele é a fraca argumentação cristã.

A maioria dos livros de teólogos parte da premissa de que Deus existe e, a partir daí, tudo é explicado por Ele. Mas como se deu essa existência e por que não questioná-la são as questões do biólogo.

Três deuses?

A santíssima trindade é ridicularizada por ele. Repare. “Temos um Deus em três partes, ou serão três deuses em um?”. Ele justifica a indagação citando a Catholic Encyclopedia ao dizer que, numa obra-prima do raciocínio teológico, os católicos destacam: “Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus, contudo não há três deuses, mas um só’”.

Os tiros passam a atingir outros e chegam ao matemático francês Pascal. Ele argumenta que embora seja improvável a existência de Deus, é melhor acreditar, pois se ele existir pode-se festejar no céu depois da morte. Em caso contrário, não fará a menor diferença. No entanto, se ele existir e as pessoas não acreditarem, há o risco da maldição para todo o sempre.

Dawkins critica Pascal o chamando de covarde e fingidor e, principalmente, argumentando que acreditar não é uma coisa que se possa decidir. “Posso decidir ir à igreja e posso decidir recitar novena… mas nada disso pode realmente me fazer acreditar se eu não acreditar. A aposta de Pascal só poderia servir de argumento para uma crença fingida em Deus. E é melhor que o Deus em que você alega acreditar não seja do tipo onisciente, senão ele vai saber da enganação”.

Quase certo?

Depois de questionar argumentos em defesa da existência de Deus, o biólogo expõe seus motivos para acreditar que quase com certeza Deus não existe. É bom destacar que a improbabilidade da existência de Deus não faz com que Dawkins — e a maioria dos cientistas ateus — afirme que ele inexiste com certeza.

A principal evidência, vista por Dawkins, da não existência de Deus é a seleção natural. E o mérito desse conceito é que ele é um processo cumulativo, que divide o problema da complexidade da vida em partículas pequenas, as quais foram ligeiramente evoluindo e formando a própria complexidade da vida. “A seleção natural não só explica a vida toda; ela também nos conscientiza para o poder que a ciência tem para explicar como a complexidade organizada pode surgir de princípios simplórios, sem nenhuma orientação deliberada. A plena compreensão da seleção natural incentiva-nos a avançar corajosamente por outras áreas”, sugere o autor, completando que a ideia de que algo simples, que sempre existiu, evoluir para algo complexo é mais palpável que a ideia de um ser-todo-poderoso que sempre existiu.

Dawkins acrescenta que o mundo é complexo e uma série de fatores facilitaram a existência. “As evidências da evolução — que podem ser estendidas para outras áreas da ciência — mostram que algo simples evolui para algo complexo, já o argumento da existência de Deus nos remete a uma pergunta ainda mais inquietante: quem o criou? Como um ser complexo, capaz de criar um mundo complexo, sempre existiu?” Sem respostas, esses questionamentos, de acordo com o biólogo, desqualificam a existência de Deus.

O biólogo fustiga, duramente, a Bíblia argumentando que ela não é uma boa fonte para recolher ensinamentos de moral — e nem mesmo os cristãos os tiram de lá. Aliás, as relações humanas seriam impensáveis se as regras morais da Bíblia fossem seguidas. E um exemplo disso é o “não matarás” dos dez mandamentos.

O autor joga mais gasolina na fogueira e interpreta que “não matarás” significa “não matarás ninguém da sua religião, mas de outra pode. O próprio livro de Números da Bíblia Sagrada conta como Deus incitou Moisés a atacar — e matar — os midianitas”.

Para o autor, existe um consenso sobre o que é considerado certo ou errado,  “um consenso que prevalece de uma forma surpreendentemente disseminada e que não tem nada a ver com a religião”.

Criança capitalista, socialista…

O biólogo dedica um capítulo inteiro desse dossiê anti-religião às guerras e segregação promovidas pela religião. A maquiagem de boa moça da religião é retirada meticulosamente e Dawkins assegura que é bem melhor viver sem ela. No capítulo seguinte, mais um mal que, segundo ele, a religião faz: o abuso contra crianças. Ele conta histórias de pessoas cujos pais as forçaram a seguir uma religião. E os ensinamentos que tiveram contrastaram com suas vidas, gerando um grande conflito que, geralmente, vai parar no divã.

Dawkins prefere que a criança seja apresentada a uma grande quantidade de informações e, quando tiver a idade correta, decida o que quer seguir. Pois, para ele, falar em criança católica, evangélica e muçulmana é o mesmo que falar em criança capitalista, keynesiana, socialista, humanista…

Por fim, ele mostra como a ciência abre os olhos para enxergar a complexidade do mundo. Se, para o autor de Deus, um delírio, antes de Darwin, o ateísmo era injustificado, sem base — pois a teoria da evolução apresentou uma alternativa à improbabilidade da vida complexa — pode-se dizer que, agora, depois de Dawkins, o ateísmo é forte, vigoroso e tem evidências reunidas (nesse dossiê) que fazem a ilusão de Deus ruir. É um bom convite para sair do armário.


2 comentários até o momento
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Ei, muito bom esse blog de vcs, Bruno e Guilherme. Parabéns.

Bom, gostei da reportagem. Acredito em Deus, (e consegui ler a reportagem, tá?) hahaha.
mas não sou religiosa, acredito que toda a gente tem algum deus. Mesmo os que pensam não ter nenhum.
Parece-me algo inato do ser humano.
Os indigenas brasileiros já tinham seus deuses antes de qualquer contato com o mundo exterior.

Eu não li esse livro, mas pretendo ler. Tenho um amigo que faz filosofia, leu esse livro e é MUITO católico, e disse que esse livro reforçou a fé dele. Não é com esse intuito que quero ler, mas me interesso bastante por biologia e evolucionismo. (mesmo não tendo certeza como é, foi e se é verdade).

Bruno, e vc? É ateu? Na sua pequena descrição não diz nada, ao contrário na do Guilherme.

Mais uma vez, parabéns, meninos.

Comentário por Paula

Oi Paula, obrigado pelo comentário. O próprio Richard Dawkins escreveu que o objetivo do livro não era tornar ateus os MUITO católicos, e sim dar uma opção àqueles que estão na religião por falta de outra coisa melhor (ou menos pior). E sobre você chegar até o final, isso era só uma brincadeira para atiçar a vontade de vocês, leitores. Fico feliz com seu comentário, o qual julgo sensato. O mundo seria melhor se todos demonstrassem respeito dessa forma. Valeu!

Comentário por Guilherme Luigi Zanette




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