A estratégia de Tiririca gastando pouco

O deputado federal mais votado nas eleições do ano passado é, também, o que menos gasta. Esse seria, então, um motivo para acreditar que, contrariando a aposta dos formadores de opinião, o deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, não entrou para a Câmara dos deputados apenas por brincadeira?

Vamos aos números. O parlamentar gastou apenas R$ 42,03 de sua cota parlamentar no mês de março, com “serviços postais”. No mês anterior, o deputado gastou R$ 1.233,72, com combustível, alimentação, manutenção de escritório e serviços postais.

Deveríamos, então, elogiar os 1,4 milhão de eleitores por ter votado em um nobre palhaço que economiza enquanto, nos últimos anos, seqüências escandalosas de mau uso do dinheiro público por parte dos representantes do Congresso foram reveladas?

Não. Primeiro porque não podemos esquecer que a candidatura de Tiririca foi uma armadilha montada pela coligação Juntos por São Paulo, composta pelos partidos PT, PRB, PC do B, PT do B e PR, com o objetivo de abrir vagas para alguns deputados.

Valdemar da Costa Neto, por exemplo, é um deles. O deputado, acusado de envolvimento no esquema do mensalão, se beneficiou com a eleição do palhaço e conseguiu assegurar sua cadeira na Câmara. Somente em janeiro, Neto gastou R$ 17,6 mil. Foram reformulações no escritório, gastos com seguranças e telefonia. Ele usou R$ 10 mil para trocar os móveis do gabinete, contratou uma empresa de segurança privada por mais de R$ 4 mil e gastou os outros R$ 3 mil em ligações.

Mas, voltando a falar de Tiririca, um outro ponto a ser analisado diz respeito às competências de um deputado federal. Sua função não é deixar de gastar, mas sim usar o dinheiro público com inteligência, de forma que o montante gasto seja condizente com o benefício dado à sociedade por meio de leis. Daí, podemos concluir que os R$ 42,03 não serviram para o deputado virar a esquina e, através do contato popular, buscar novas ideias que possam resultar em leis interessantes para a sociedade. Afinal, um deputado é um representante do povo em Brasília.

Gastando R$ 42,03, Tiririca se priva de trabalhar, de ter ideias, de bolar leis, e no final, por ser um dos que menos gasta, ainda sai com a imagem fortalecida, recebendo seu salário no final dos meses sem participar efetivamente da parte política da qual foi designado por meio de voto popular.

Sobre Guilherme Luigi Zanette
Jornalista formado pela Faculdade de Artes e Comunicação da UNISANTA. É redator da revista Public First Class, especializada no mercado de luxo. Foi estagiário da TV Primeira de São Vicente atuando nas áreas de produção, apresentação de programas e repórter; na TV Santa Cecília, atuou na área de produção. Participou como diretor, editor de texto e produtor do documentário "Ofício: Intercambista", apresentado como trabalho de conclusão de curso. É metaleiro não-bitolado, escutando vários ritmos. Cético e ateu.

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