Semiótica da Cultura: os piercings
Por Guilherme Zanette
Introdução
O piercing, no corpo, é mensagem! Independente de qual e quem formulará juízos de valor ou admiração pelo adorno, ele é mensagem. Aliás, o corpo – como veremos nesse trabalho – virou suporte para arte, para as mensagens subjetivas… ele já é responsável por externar a subjetividade do indivíduo. Uma das características básicas para se considerar algo como mensagem são suas respectivas emissão e recepção. Aqui, a emissão e a recepção recebem importância especial, baseados em nossa visão, na entrevista em anexo e em pesquisas bibliográficas.
Tentamos avaliar os motivos para se colocar um piercing. Mas, há de se dizer que tais motivos sempre dependerão do indivíduo, então nem todos se encaixam em algumas propostas.
Optamos por não tratar especificamente de “tribos”. Sabemos a importância que elas tiveram na transformação do pensamento social em relação ao piercing; entretanto, preferimos tratar o adorno não como objeto de inclusão grupal, privilégio dos englobados em tribos urbanas, mas sim como algo que está na moda pela vontade individual de quem o põe.
O conservadorismo repreensivo em relação às modificações corporais será criticado ao final do trabalho, pois entendemos que o corpo é de propriedade individual e, portanto, o sujeito é livre para decidir o que faz com ele.
Ao final, em anexo, tem-se uma entrevista com uma jovem (19 anos), que é professora de informática e já chegou a usar 26 piercings ao mesmo tempo no corpo – hoje um pouco menos até pela profissão que tem. Sua entrevista contribuiu muito para corroborar nossas idéias, que são embasadas com pesquisas bibliográficas sobre o assunto.
Breve histórico dos piercings e suas crenças pelo mundo
O corpo humano passou por inúmeras transformações desde o surgimento da vida na Terra. Do nu, aderimos às roupas. Paralelamente, não só a cobertura do corpo com as roupas foi realizada. Os adornos também são indícios da importância da moda na evolução humana. E, ao contrário do que se possa imaginar, os piercings, brincos e acessórios corporais não são recentes. Há registros que a arte do body piercing já tem mais de 5.000 anos. Tal arte já foi utilizada como expressão corporal, ritual espiritual, distinção de realeza, moda e, hoje mais comumente, diferenciação pessoal. A própria Bíblia Sagrada nos dá uma referência deste acessório em Gênesis 24:22. Na passagem, Abraão ordenou ao seu mais antigo servo que encontrasse uma esposa para seu filho, Isaac. Este servo encontrou Rebeca, e um dos presentes que deu a ela, em nome de Isaac, foi um “brinco dourado”. “Quando os camelos acabaram de beber, o servo pegou um anel de ouro que pesava cinco gramas e o colocou nas narinas dela.”
Outros povos usaram o piercing – e cada um simbolizando algo. Em tribos africanas, o tamanho do anel do piercing de nariz indica a riqueza da família – quanto maior, mais rico; é dado pelo marido para sua mulher no dia do casamento. Na Índia, o piercing na narina esquerda foi o mais comum entre as mulheres, porque as tribos indianas acreditavam que isso reduzia a dor na hora do parto. No ocidente, o piercing de nariz apareceu pela primeira vez entre os hippies que viajaram para a Índia no final dos anos 60. No fim dos anos 70 foi adotado pelo movimento punk como um símbolo de rebelião contra pessoas e valores conservadores.
Já o piercing de língua era praticado em rituais pelos Astecas, Maias e outras tribos norte-americanas. A língua era perfurada para derramar sangue, propiciá-los aos deuses e criar um Estado Alterado de Consciência para que o padre ou xamã pudessem se comunicar com as entidades superiores.
No lóbulo da orelha, os piercings eram colocados com um propósito mágico, já que as tribos acreditavam que demônios poderiam entrar no corpo através da orelha e o metal fazia com que eles se afastassem. Esta mesma perfuração foi encontrada no mais velho corpo mumificado do mundo, datado de 5.000 anos atrás, na Áustria glacial em 1991. (A perfuração da orelha da múmia tinha de sete a onze milímetros de diâmetro.) Os marinheiros acreditavam que a colocação do piercing na orelha dava-lhes uma melhor visão. Em Borneo, na Indonésia, funcionava como um ritual de puberdade, na qual a mãe e o pai colocavam-no como um símbolo da dependência das crianças.
Indicando hierarquia social, o piercing nos lábios foi utilizado pelos homens mais ricos das tribos Astecas e Maias, por ser os lábios uma das regiões mais sensuais do corpo.
O piercing no septo é provavelmente o segundo mais comum entre os povos primitivos, depois do piercing na orelha. É comumente relatado das culturas de guerras, pois tem a ver com o fato de se assemelharem às grandes presas de animais como elefantes, e isso os daria uma aparência feroz. Popular na Índia, no Tibete, foi também adotado pelos Incas, Maias e Astecas.
Só há registro do uso do piercing no umbigo no Antigo Egito, onde apenas os faraós e as famílias reais podiam-no utilizar.
O piercing no mamilo foi por muito tempo considerado um símbolo de força e virilidade. Usado pelos nativos da América Central e do Sul, tinha também uma função de transição da masculinidade. Em Paris, em 1890, houve uma utilização em massa desse adorno por mulheres vitorianas, que usavam as jóias não só como um acessório decorativo, como também, para expressar os sentimentos.
Conclui-se então, que do uso dos piercings pelas culturas primitivas há sempre um grau de crença, resultado do pensamento de sacrifício para com os deuses através de perfurações ou apenas o status social proporcionado pelo adorno. No próximo capítulo, o piercing será visto não como um objeto que carrega crenças e superstições, mas como um objeto de moda, funcional ou estético.
O piercing hoje: os jogos corporais como mensagem, sua emissão e recepção
‘Creio que, se trabalhasse a argila, ou a cera, talvez conseguisse transmitir o que tenho no espírito.’
Johann Wolfgang Goethe,
Os sofrimentos do jovem Werther
No panorama atual da pós-modernidade, onde o consumo é a essência do pensamento social, a moda exerce grande influência na vida de cada qual que ocupa uma posição na sociedade.
Devido à universalização das roupas e suas vendas em massa, a moda passa apenas a diferenciar-se quanto à classe social. Mas, mesmo os integrantes de uma dada camada social são aparentemente parecidos entre si. As roupas e acessórios já foram vistos como forma de apresentar-se de maneira diferenciada de outrem. Hoje, entretanto, com a socialização da moda , a necessidade de diferenciar-se transformou a maneira de pensar do indivíduo para com o seu corpo. Este perde a concepção cristã que perdurou por tantos séculos: não é mais um presente de Deus, que é perfeito, imutável, “imexível”, irretocável. Agora, o corpo é a argila, o material moldável que usamos e manipulamos, perfuramos, introduzimos objetos, reduzimos gorduras, moldamos numa definição de corpo escultura; ou seja, jogamos, brincamos com ele.
As cirurgias estéticas, a musculação, entre outras atividades modeladoras do corpo nunca estiveram tão em voga. Ter o corpo perfeito, definido, é o pensamento da massa. Outras cirurgias como as de mudança de sexo também têm adquirido muitos adeptos, devido ao grande movimento de liberação sexual.
Paralelamente, há os que querem diferenciar-se, que podem buscar um corpo perfeito também, mas querem algo mais; querem o adorno. E, nessa busca pelas diferenças individuais, os acessórios passam a ser não mais decorativos, mas permanentes. Não mais o corpo como um manequim para roupas, mas, agora, como um suporte para arte.
Piercings, alargadores, entre outros, assumem caráter mais que secundários. É importante lembrar que o piercing só é objeto cultural se está incluído em um contexto, no caso, o corpo humano. Isoladamente, ele é um objeto metálico sem representação cultural.
O diferencial de nossa época é o corpo exposto para formar a identidade própria, além de comunicar algo. “O corpo que reproduz a si mesmo em fotos, que se coloca à mostra. Que precisa destacar-se dos demais para ter uma identidade, já que esta vem de fora, vem do outro – o sujeito não se reconhece por si mesmo, é o olhar do outro que lhe confere ou não identidade .” O uso desses objetos surge para quebrar um vínculo com a sociedade: impor-se, mostrar-se nunca pelo comum, que se torna supérfluo e desinteressante, mas pelo diferente, que chama atenção e quebra o tédio. O corpo, então, vira o que Beatriz Ferreira Pires chama de outdoor de si mesmo.
E, então, a diferenciação se faz cada vez mais presente: o indivíduo precisa dela para construir a si mesmo, através de uma desconstrução do corpo.
Portanto, se para McLuhan , o meio é a mensagem, na pós-modernidade o corpo é o meio de comunicação e, por conseguinte, a mensagem. E os amantes do body piercing farão o possível para desconstruir o corpo: é o jogo. “Tudo se reduz a este princípio: o corpo é seu, joga com ele! Vejo que as pessoas têm uma necessidade desesperada destes ritos; eis por que renascem o piercing e a tatuagem. De um modo ou de outro, as pessoas precisam de uma cultura tribal” (Musafar apud. Ferreira, 2005, p.101). Fakir Musafar, aliás, define sete categorias do jogo com o corpo: jogos de contorção (modifica forma e crescimento dos ossos, ginástica, por exemplo); de constrição (compressão, utilizar cinturões que diminuem a cintura); de privações (enclausurar, como prática de jejuns e privação do sono); de impedimento (adereços de ferro, como enfeites para o pescoço); com fogo (queimar, bronzeamento exagerado e marcas por queimaduras); de penetrações (invasão, perfurações como o piercing); e de suspensão (suspender o corpo por meio de ganchos de açougueiro) .
Não obstante as mil fórmulas estéticas para se ter um corpo perfeito, agora querem jogar com ele, perfurá-lo, marcá-lo, inserir nele registros de uma modificação – ações possíveis pela atual cultura de permissividade para com o corpo. Usa-se destas modificações corporais, também, para fazer-se perceber perante a sociedade e passar uma informação – seja ela qual for, já que dependerá do contexto histórico do receptor. Notamos aqui uma diferença do atual contexto cultural do piercing para o das culturas primitivas. Se antes eram as crenças que definiam onde, o tamanho e o que perfurar no corpo, hoje é a vontade individual de modificar a estética corporal que predomina.
Quanto aos destinos de recepção, quem põe piercing terá três: para a sociedade (quando o piercing é visível mesmo com roupa), para íntimos (geralmente quando colocado em zonas erógenas, ou escondido pela roupa), ou, teoricamente, na hipótese de usar para passar uma mensagem para si mesmo (em caso de uso exclusivo em momentos isolados).
O piercing que tem como destino a recepção da sociedade, geralmente é colocado na orelha, sobrancelha, dente, língua, boca, umbigo e nariz. Não que se queira, necessariamente, causar impacto com o visual: às vezes, simplesmente é usado para dar um retoque, um up, no visual. Para quem já é perfurado , a diferença entre um rosto com piercing e um sem é tão notória, que a ausência do adereço já modifica a mensagem que se queria passar. Ou seja, ele é puramente estético.
Quando o destino são as pessoas mais íntimas, geralmente, o piercing é colocado em zonas erógenas (pênis, mamilos, grandes lábios, e outros). Neste caso, o uso do piercing se dá não só como fetiche, mas também para proporcionar uma maior excitação sexual. Ele é funcional. Beatriz Ferreira conta que este tipo de perfuração é adquirido por dois motivos distintos: a castidade (usado antigamente com a finalidade de impossibilitar as relações sexuais e sendo aplicado nas mulheres, atravessando e unindo os grandes lábios, e nos homens, atravessando e fechando o prepúcio); e, mais usado agora, para intensificar o prazer que o indivíduo possui, durante o ato sexual ou não, e de seu parceiro.
O que leva uma pessoa a colocar um piercing, quando ele é puramente estético? Podem-se considerar vários motivos para isso. A dor, entretanto, é uma das principais. A psicanálise já dizia que a dor é necessária para se chegar ao prazer. No caso, o prazer de ter conseguido suportar o máximo possível para colocar um adereço no corpo. Além de chamar a atenção tanto de quem gosta quanto de quem não gosta.
Vale notar que receptor e emissor, sempre considerando os piercings como mensagens, têm diferentes visões acerca da dor. O receptor apenas a imagina no momento da colocação do piercing: ele a vê como representação. Tem, portanto, apenas uma idéia dela e constrói o “valor” dessa dor. Então, é normal os receptores considerarem a dor da colocação de um piercing como algo fora do comum, algo para loucos, masoquistas. Já os emissores, percebem-na como vontade e sabem, de antemão, que a dor é suportável, por ter mais contato com outras pessoas que já tem piercing.
Outra diferença notada é que o receptor projeta a dor, mas não a sente. Tem apenas aflição, medo. O emissor, por outro lado, sente a dor. Mas, mais do que isso, goza do prazer de ter passado por ela. Isso é o que causa a diferença de visões entre os que condenam o piercing e os perfurados.
Outro motivo é a já citada necessidade de diferenciação. Logo que chegou ao Brasil, o piercing foi ganhando adeptos justamente por diferenciar, qualificar o indivíduo, externar sua subjetividade. Com o apoio da moda, e daí vem a grande contribuição com modelos usando o acessório na passarela, o piercing popularizou-se e chegou ao grande público. Mas, os mais antigos nessa arte não deixaram de utilizar o adereço, diferentemente dos fãs de bandas de músicas. Por que, se em música, é comum a síndrome do underground , o mesmo não se dá com os que têm piercing. Ninguém deixa de usar o piercing porque está na moda. Pelo contrário, o perfurado coloca mais para se diferenciar mais. É a busca pelo mais; é o viciante.
Joyce Matias Augusto tem 19 anos e é professora de informática. Perfurada com alargadores e piercings, e tendo várias tatuagens espalhadas pela corpo, ela já chegou a ter 26 piercings ao mesmo tempo. Ela nos conta algo sobre esse ‘viciante’. Quando questionada sobre a sensação sentida logo após colocar um piercing, ela dá a impressão de que o vício em sempre colocar mais é algo interior e está ligado ao prazer e à arte de translaçar os piercings em sua orelha. “A minha sensação? Nossa! É indescritível, eu fico feliz… e, ao mesmo tempo, com vontade de colocar outro…” Ao mesmo tempo, ela explica sentir-se normal quando encontra alguém com mais de cinco piercings. “Acho legal [encontrar outra pessoa com bastante perfuração], porque é difícil ver alguém com mais do que cinco piercings… eu acabo me sentindo normal.”
Já outros conferem um motivo inteiramente pessoal e interior à colocação de piercings. “Como nós ‘civilizados’ não temos… ritos de passagem… muitos indivíduos encontram um vazio em suas vidas, que a experiência do piercing freqüentemente preenche” (Piercing Fans International apud. Steele). É importante notar que este vazio está sendo cada vez mais diagnosticado na sociedade pós-moderna, que tem como característica o pessimismo e é quase niilista.
Surge em paralelo a esse vazio de massa, a difusão da idéia liberalista do Be yourself, que com grandes movimentos em favor da liberdade sexual e direitos humanos, ajuda o jovem a realizar sua vontade, a se tornar mais liberto da moral conservadora. Se ele quer, ele põe o piercing. Encontra-se referência clara dessa idéia na música Máscara da roqueira Pitty. Diz a letra: “Seja você/mesmo que seja/estranho/seja você/mesmo que seja bizarro/bizarro/bizarro…”. Já não há mais a vergonha, ou o pensamento de “o que os outros vão pensar?”. Agora é ele, somente ele que tem o poder de decisão. Ele faz, ele assume as responsabilidades, vence a si mesmo e todos seus conceitos e preconceitos em busca de um bem-estar consigo mesmo. É a sociedade fazendo jus ao pensamento de Sartre: “o homem está condenado a ser livre”.
É claro que a liberdade na emissão da mensagem, no caso o corpo, tem a contrapartida da liberdade de recepção, já que esta depende da visão de mundo do receptor. McLuhan analisa as diferenças de recepção entre os povos atrasados e nações livres do Ocidente: “Um anúncio recente dos Serviços de Computadores C-E-I-R apresentava um simples vestido de algodão, com o título: ‘Por que a Sra. K. se veste desse jeito?’ (referindo-se à esposa de Nikita Kruchev). O texto desse anúncio bastante engenhoso dizia: ‘Trata-se de um ícone.’ Para as suas próprias populações ainda atrasadas e para os não alinhados do Oriente e do Sul, ele diz: ‘Nós somos sóbrios, simples, honestos, pacíficos, caseiros, bons.’ Para as nações livres do Ocidente, ele diz: ‘Nós os enterraremos.’”
Portanto, os mais conservadores dirão, com freqüência, que piercing é coisa de punk, de rebelde, de revoltados sociais, de masoquistas, anti-cristãos, modistas e assim vai, já que esta lista de adjetivos é imensa. Julga-se quem tem piercing com base nos pensamentos de que o corpo é um presente de Deus e que, portanto, toda manipulação e modificação feita nele é obra do Diabo, jogo de Satanás. “Existem muitas formas de identificar que uma sociedade adotou os valores satânicos, mas a evidência visível dos múltiplos piercings e tatuagens é a mais forte de todas. Essas práticas de mutilação do próprio corpo são expressamente proibidas na Bíblia, pois são usadas no satanismo para exercer o controle sobre as pessoas!” Evidentemente, não é toda a sociedade que pensa dessa forma, mas esse é um pensamento comum em fanáticos religiosos – estes que proíbem seus filhos de usarem os piercings.
E não são somente os religiosos que vêem o piercing de forma negativa. De acordo com a body piercer Fabíola Reis Carvalho, em entrevista ao UNISANTA Online, ainda existe discriminação e preconceito para com os usuários de piercing e tatuagem. “Elas [as pessoas] têm o péssimo costume de achar que tatuagem ou piercing muda o caráter, que ter desenhos no corpo é sinal de que se é marginal, ou usuário de drogas. Esse conceito está completamente errado e fora de foco”.
Outro argumento amiúde utilizado diz respeito ao emprego. Com piercing, brinco, alargadores não se tem emprego, dizem os mais conservadores. Há grandes equívocos neste pensamento, pois o piercing atinge seu apogeu na sociedade atual e não há mais motivos para um empregador desconsiderar a contratação de um empregado, sob este argumento. Primeiro, porque imagem não forma caráter, não forma modo de trabalhar, nem dedicação, nem maturidade. Segundo, porque o piercing já se popularizou tanto na sociedade atual que o fato de se ter um empregado usando o adorno já não provoca reações adversas nos clientes. Em paralelo a isso, as lojas com espírito mais jovens vêm contratando pessoas com ar de modernidade, que tem um visual mais próximo da jovialidade. Elas pensam no público-alvo. Quem tem piercing nota o do outro. Quem não tem, e já está tão acostumado a ver no corpo dos jovens, nem faz mais juízo de valor por causa do objeto.
A mídia, em paralelo, não consegue explicar e dar ouvido aos jovens que fazem modificações corporais. Ela tenta englobá-los em uma categoria só: a dos rebeldes. Isso alimenta o conservadorismo. Pois, como retrata bem Canevacci, “lá onde o olhar adulto só vê uniformidade, para os olhares intermináveis do jovem dilatam-se diferenças vitais, pequenas minúcias apaixonantes, identidades micrológicas “. Em Culturas eXtremas, Canevacci explica como surgiu seu ensaio sobre as culturas juvenis: “As pesquisas jornalísticas, as pesquisas quantitativas, as abordagens generalistas, as visões prescritivas não conseguem dar, em minha opinião, o multissentido das perspectivas emitidas por aquelas que se definem ‘culturas juvenis’” (Canevacci, 2005). Os perfurados, modificados não são um bolo só, não fazem o piercing pelo mesmo motivo, não se mostram da mesma forma – fatos esses que a imprensa parece desconsiderar. Aliás, não se vê uma vontade dos jornais em retratar a realidade cotidiana dos jovens perfurados ou com outras modificações corporais. Em contrapartida, as notícias sobre infecções causadas por piercings são mais comuns. Trata-se o raro como regra em títulos sensacionalistas como “Depois do piercing, a mesa de operação “, que dão a idéia de que piercings sempre geram infecções. Essa matéria do Jornal da Tarde, aliás, cita que 80% dos pacientes que chegam à unidade do Hospital das Clínicas por problemas na colocação da jóia, precisam recorrer à mesa de operação. Entretanto, se fosse comparado o número de perfurados com o número de pessoas que tiveram alguma reação adversa, chegar-se-ia a um número inexpressivo. Ora, reações adversas há em fazer musculação de maneira errada, em alguns casos de cirurgia plástica em que o corpo reage mal – só para citar duas. E, não se pode tratar o incomum como preceito básico: não se terá infecções em todos os casos.
Ademais, o respeito às diferenças é extremamente vital para uma sociedade mais livre e o marasmo dos iguais leva a um tédio quebrado somente pelos diferentes. Sobretudo em relação ao corpo, as diferenças e modificações devem ser conseqüências de uma decisão individual do sujeito, nunca atrelada à moral vigente. Pois, no campo da liberdade, o corpo é de domínio pessoal. Se quiser tratá-lo como produto, como fonte de adoração espiritual, como presente de Deus, enfim, é permitido. E uma maior aceitação irá contribuir para uma melhor definição “desse espaço que abriga, de forma contundente, definitiva e concreta, conhecimentos artísticos, científicos, míticos e tecnológicos: o corpo “.
Anexo
Entrevista – Joyce Matias Augusto, 19 anos.
Está terminando o 3º ano do Ensino Médio e pretende fazer Engenharia da Computação. Trabalha como professora de computação. Dá aulas de informática básica, avançada, cursos profissionalizantes, manutenção de micro, editoração gráfica, programação, contabilidade e departamento pessoal.
Fernanda e Guilherme: Quando você fez seu primeiro piercing? E por quê?
Joyce Matias Augusto: Eu fiz meu primeiro piercing com 11 anos. No começo era por beleza… achava ‘mó style’ ter as orelhas todas furadas. Depois foi por arte… ficava cada vez mais admirada com a minha criatividade de translaçar os piercings nas orelhas…
Seus pais te apoiaram?
Digamos que eles não queriam, porque tinham medo que inflamasse… mas autorizaram eu colocar.
Você já sofreu algum tipo de preconceito por conta dos piercings?
Sim, já sofri vários preconceitos. Pessoas que falavam comigo a primeira vez, sempre diziam: ” Ah, você cheia dos piercings, eu tinha muito medo… achando que você fosse toda ignorante, que se eu perguntasse as horas, você já iria me xingar.. mas, pelo contrário, você é legal”. Um preconceito pior aconteceu com meu professor de História: ele quis elogiar e nem acabou percebendo o preconceito que fez sobre os roqueiros. Ele disse: “Gente, vocês estão vendo essa menina do cabelo verde e cheia dos piercings e desenhos no corpo, que curte rock? Então, ela não é só visual não. ‘Mesmo tendo essas coisas todas’, ela é uma menina muito inteligente e a mais aplicada da classe”. Disse sem ao menos perceber…
Como as pessoas no seu ambiente de trabalho lidam com isso? Já teve que tirar algum piercing por causa de trabalho?
Lidam normalmente, mas no trabalho tenho que cobrir minhas tatuagens e só deixo o piercing do nariz visível, porque você querendo ou não, os alunos sempre se espelham nos professores e lá eles não querem que eu os influencie mesmo que indiretamente. Tirei quase todos por causa do trabalho.
Quantos piercings você já fez no total e em quais lugares do corpo? E cite os que você tem hoje em dia.
Nossa, pergunta difícil. Vou tentar lembrar… já tive: 15 nas orelhas, em diferentes lugares; dois alargadores 26 milímetros; dois piercings na sobrancelha; três no lábio; um no freio (gengiva); dois no tragus; um no septo; dois no umbigo (em cima e embaixo); um transversal na orelha; e dois no nariz (nostril e argola) – que já foram furados 8 vezes no total. Mas, usando ao mesmo tempo… fiquei com 26 piercings no máximo. Hoje em dia, ainda tenho os 15 das orelhas, no tragus, no freio (gengiva), no nariz, septo e os dois alargadores – mas eu diminui o tamanho.
Qual sua sensação quando vê alguém com quase os mesmos piercings que você tem?
A minha sensação… é estranho responder… mas eu acho legal, porque é difícil ver alguém com mais do que cinco piercings… eu acabo me sentindo normal (risos).
Qual a sua sensação logo após colocar mais um piercing?
A minha sensação? Nossa! É indescritível, eu fico feliz… e, ao mesmo tempo, com vontade de colocar outro…
As pessoas costumam dizer que piercing é coisa de ‘rebelde sem causa’. O que você acha disso?
Eu acho isso um absurdo, porque não tem nada ver uma coisa com a outra. Piercing não é coisa de rebelde… é uma coisa que você se identifica, é pra quem gosta… ou simplesmente porque você acha bonito.
Na sua opinião, qual o impacto que causa uma pessoa com piercings? E por que você acha que ainda há certo tipo de preconceito?
É, hoje em dia eu vejo que causa muito impacto, e chama bastante atenção. Antigamente eu não via tanto isso, mas muitas pessoas param pra olhar, pra perguntar. Hoje em dia, não são muitos os que perguntam, porque tenho menos piercings. Na minha opinião, ainda há muito preconceito pelas pessoas não aceitarem as diferenças… tem que ter um padrão, se não tiver é maluco! É um absurdo você ter que mudar pra poder trabalhar, se encaixar no padrão deles… mas é a vida, pelo menos o preconceito diminui a cada dia.
Qual mensagem você deixaria para as pessoas que ainda tem preconceito, explicando por que elas não deveriam ter.
A minha mensagem é: o que vai mudar pra você, se você tiver preconceito? Eu só gostaria que a pessoa que tem preconceito respondesse isso… Pois, se for doer, como elas acham que doem, não vai ser nelas, certo? Se for inflamar ou algo do tipo, também não será nelas… e elas podem perder a oportunidade de conhecer pessoas super bacanas, inteligentes, por causa de um preconceito… achando que a pessoa é da bagunça ou marginal… sendo que não é. Pois, piercing não muda caráter, nem personalidade.. pense nisso!
Como você avalia as notícias jornalísticas: você acha que elas refletem bem o que os jovens pensam ao por um piercing ou só tratam dos problemas como infecções?
Primeiramente, acho que eles deveriam falar a verdade. Porque um piercing só inflama quando você não toma os cuidados necessários, quando não se faz a assepsia corretamente. Eles deveriam colocar que se você cuidar, terá uma cicatrização ótima e um piercing pro resto da vida sem problemas. Mas, se não cuidar… aí sim deveriam colocar os riscos e conseqüências. Não deveriam já chegar colocando o ponto negativo, porque há pessoas e pessoas. Cada corpo tem um tipo de reação.
Você também faz piercing?
Sim. Eu acredito que as pessoas têm motivo pra colocar piercing. Quando chegam pra aplicar um piercing comigo, eles sempre contam uma história diferente. É bacana ouvir, e ver a felicidade da pessoa, por uma coisa tão simples… me deixa feliz. Não tenho tanto tempo agora, por causa dos meus alunos, mas se tivesse, com certeza estaria aplicando os piercings e fazendo tatuagens porque é muito bom ouvir a história de cada um, ver a alegria no rosto quando termina o trabalho… eu estou percebendo que o preconceito está diminuindo.
Bibliografia
Bíblia Sagrada segundo o catolicismo, Gênesis 24:22.
CANEVACCI, Massimo. Culturas eXtremas: mutilações juvenis nos corpos das metrópoles. Tradução de Alba Olmi. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2005
Bíblia Sagrada
LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989
____________. Felicidade Paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2007
MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. Tradução de Décio Pignatari. São Paulo: Editora Cultrix, 2002
PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da Arte: piercing, implante, escarificação e tatuagem. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2005
STEELE, Valerie. Fetiche – Moda, Sexo & Poder. Tradução de. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
Webgrafia
Sobre a história do piercing e suas crenças: http://www.painfulpleasures.com/piercing_history.htm
http://mulher.sapo.pt/articles/moda_e_beleza/corpo/744085.print.html

lesgal
Sara disse isso em Maio 28, 2009 às 10:39 am
mto legal isso!!!
me ajudou na pesquisa do colégio…
Valeu aí!!
Naty disse isso em Setembro 28, 2009 às 3:25 pm
oi!
gostei bastante do texto!!!
muito interessante!!
♥Gabi♥ disse isso em Setembro 28, 2009 às 3:26 pm
Olá!!!
Achei muito legal, já sabia que isso existia há mto tempo mas não tanto tempo assim…
ah,Gostei da entrevista!!!
Bj!!
Vitória disse isso em Outubro 1, 2009 às 7:34 pm