Lydia Leão Sayeg: Um diamante lapidado com carinho — Capa da Public First Class, ed. 22

156762_515197158499542_273384637_nTransparente, Lydia Leão Sayeg se mostra uma pessoa direta. Encantada desde cedo pelo mundo das joias, seus olhos brilham quando fala do pai. Conheça mais sobre a joalheira, definida como uma verdadeira mulher diamante.

O verde das plantas e da grama, o rosa das orquídeas e o azul do céu e da piscina formam uma combinação de cores meticulosamente harmônicas que permearam a infância da joalheira Lydia Leão Sayeg, que nos recebeu na casa onde cresceu com seus pais. É por isso que a resposta da sucessora da exclusiva Casa Leão Joalheria não poderia ser outra quando questionada sobre como havia sido sua infância. “Assim”, ela responde apontando para o ambiente, onde estão entrelaçados o ar puro, a sua infância e a história da família.

História essa que ela conta com muito orgulho. Afinal, são cem anos de Casa Leão Joalheria e a sucessora administra tudo sem pensar que isso é um desafio. “Desafio? Não… vamos usar as palavras certas: É um prazer, é uma honra, é um privilégio. Eu sou uma privilegiada”, corrige ela, antes de se emocionar, certamente lembrando-se de toda a história da joalheria.

É de fato uma narrativa que emociona, parecendo até um romance de ficção. Só que é tudo verdade: Lydia conta que quando seu avô, o joalheiro Leão Sayeg, se casou com a sua avó, Genny Abdo Sayeg, a presenteou com um vestido todo enfeitado com pérolas e diamantes, além de colares e clipes de brilhantes. “A vovó Genny era uma mulher muito bonita e muito disputada naquela época, com vários senhores que queriam casar com ela. E o vovô Leão, um homem muito inteligente, muito comerciante, a conquistou dessa forma. Então eu aprendi que a joia é uma conquista, é uma emoção. E o diamante sempre conquista uma mulher, pois ele brilha e traz o brilho no olhar também. Esse vestido é um marco na família. Eu o usaria. Casaria com o modelo igualzinho”, comenta, antes de continuar a história.

E essa vestimenta foi usada como investimento na continuidade dos fatos. Lydia relata que o ápice da história — e onde ela se torna emocionante — acontece quando, na revolução de 1924, Leão Sayeg teve sua loja saqueada e metralhada. “A minha avó, apesar de ter várias filhas mulheres, devolveu o vestido a ele para que meu avô pudesse tirar cada pérola, cada diamante e fazer solitários de pérolas e diamantes, a fim de reiniciar a empresa como Casa Leão Joalheria. E a partir daí ele se reergueu… E nós estamos aqui até hoje, cem anos depois”. Esse foi um momento marcante para ela e outras netas, como Genny Sayeg Abdelmalack, mestre na área de Artes, que estava presente na entrevista e foi elogiada em vários momentos por Lydia como sendo uma profunda conhecedora do mercado de luxo.

E para manter essa história de pé, Lydia exige o máximo de seus colaboradores. Ela é perfeccionista e exigente, características que adquiriu desde muito nova. “Adoro uma frase do Churchill: ‘Eu fico facilmente satisfeito com o melhor’. Churchill tinha as melhores frases do mundo. Sabe como ele fazia as reuniões dele? Ele conversava por 15 minutos e depois ficava três horas fumando charuto com as pessoas da política com quem ele se reunia”, detalha ela, revelando sua admiração pelo primeiro ministro do Reino Unido na época da Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill. Dele, Lydia também faz questão de citar o pensamento que a toca todo dia pela manhã: “O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade”. A joalheira se diz perfeccionista até com as frases que profere: “Não perco uma frase falando algo que não tem valor. Não faço nada sem sentido”, enfatiza.

E esse perfeccionismo vem junto com o amor pelas cores e pelas joias, que ela brinca ter vindo do berço. “Acho que meu despertar para as joias foi na sala de parto. Na verdade, foi quando eu via meu pai estudando com muita paixão as pedras na sala de jantar da nossa casa, pelo Gemological Institute Of America. Meu pai, Ivan Leão Sayeg, era um verdadeiro joalheiro, assim como eu. O resto é comerciante de joias. É completamente diferente”, pontua, com brilho nos olhos — característica visível toda vez que fala no pai.

O interesse fez com que ela investisse na carreira. Na infância, fez aulas de piano, inglês e Ballet Clássico. “Acredito que o Ballet Clássico dá à mulher a elegância eterna”, afirma. Mas tudo isso sempre observando com afinco o pai e o desenvolvimento de suas joias. Aos 13 anos, desenhou e criou joias para colegas no colégio. “Eu não perguntava muito pro meu pai, mas eu era uma filha muito grudada com ele e com a minha mãe. E muito observadora.”

Aos 18 anos, convenceu o pai a abrir uma filial para ela gerenciar. Estudou e se formou em Desenho Industrial em São Paulo e em Gemologia (especialidade que estuda o caráter físico e químico das pedras) nos EUA. No entanto, ela faz questão de assinalar que nunca trabalhou na vida. “Meu trabalho é meu hobbie. Eu tenho prazer na Casa Leão. Não consigo separar o que é trabalhar e o que é ter prazer, o que é ser artista, estudar, pois para mim é tudo uma coisa só. Sempre fui ótima aluna, sempre fiz com perfeição aquilo que faço, seja um prato de comida, arrumar o armário ou montar um brinco de um milhão de dólares. Só trabalha quem não gosta do que faz”, determina, e completa: “Quem gosta do que faz é um pesquisador, é um historiador, é um estudante, é um apaixonado… É um apaixonado pelo que faz. Eu vendo felicidade, não é? Eu participo da vida dos meus clientes, me interesso por eles. Leonardo da Vinci trabalhava? Não, porque era um apaixonado.”

E só quem é apaixonado pelo que faz pode desenvolver uma peça cara, não no sentido de preço, mas sim de valor. “Caro é tudo que é feito com carinho. Por que minhas joias são caras? Porque elas são feitas com carinho. Isso é dicionário”, esclarece.

Nesse sentido, ela se compara a um diamante, tendo várias características dele. “Sou transparente”, diz ela, no que seria sua primeira semelhança com a pedra preciosa. Depois, ela vai mais longe, quando questionada se concorda com a percepção de que é uma mulher forte. “Eu tenho a mesma dureza e a mesma tenacidade do diamante. Dureza é quanto a risco [e o diamante tem dureza alta]. E tenacidade é quanto à quebra [e o diamante tem baixa tenacidade]. O diamante quebra. Então eu não sou tão forte assim quanto você pensa”, avalia. “Eu sou sensível e o diamante é sensível, extremamente sensível. Todas as pedras são extremamente sensíveis. Ao calor, à luz. Eu sou uma mulher diamante”, decide, concordando que não é uma mulher necessariamente forte, mas de emoções fortes.

Apesar disso, ela mistura seu jeito bem-humorado com algumas opiniões fortes. “Eu não sou bajuladora de ninguém”, afirma, justificando porque não vai a tantos eventos. Em um deles, tive um contato visual com Lydia que demonstrou seu lado vendedora. Uma moça estava em seu estande vendo um colar e Lydia se aproximou e começou a conversar com ela, pedindo, em seguida, que provasse o colar. “Eu acho que a jóia é uma coisa que tem que ser sentida. E para ser sentida, você tem que vestir. Você tem que por em contato com a sua pele. E tem que combinar com o seu tom de pele. Ela tem que ser esteticamente correta com seu físico. Tem que combinar com seu pescoço, com a sua orelha, com sua cor. Todo mundo tem a cor da pele, e eu não estou falando aqui em raça. Estou falando em estética, em combinação de cores”, explica.

Ela comenta que acha inadequado o efêmero da moda, “aquela coisa do ouro branco, ouro amarelo, ouro rose”. “Moda é o que fica bem em você e é atemporal. E tem pessoas que combinam com o ouro branco, outras com amarelo e ainda outras com rose. Não importa o que está na moda”, completa. Nesse sentido, ela revela sua paixão pelo veludo. Azul marinho. Esse mesmo das fotos. “Esse vestido é Carina Duek. Adoro Carina Duek. E também adoro veludo: pode passar mais cem anos, não vai existir tecido mais chique que o veludo. Veludo azul marinho não pode faltar no meu guarda-roupa”, conta e revela também sua paixão por antiguidades. “Não gosto de coisa moderna”.

Também sobre moda, ela diz ter aprendido com a cantora Cher que o sapato cor da pele deixa a mulher mais alta. “Fui em inúmeros shows da Cher em Las Vegas. E ela só sobe ao palco com sapatos da cor da pele. Porque ela não é uma mulher alta assim como eu. E eu aprendi com ela. Você viu como eu estou alta hoje?”, ensina.

Ainda no quesito elegância, outra frase não sai de sua cabeça: “menos é mais”, resultado da amizade com a publicitária e amiga Bettina Quinteiro. “As pessoas mais ricas que eu conheço são simples.”

Somado a isso, a joalheira sugere que só pode aprender com os mais velhos. “Eu sei que não vou aprender com gente que viveu menos que eu. A experiência tem que ser vivida.” De acordo com outro pensamento seu, a humildade significa inteligência. “E para você ouvir, você tem que ser humilde: ficar quieto e escutar. Quando você ouve, você aprende.”

Uma mulher com a cabeça cheia de máximas e frases, mas que responde cada pergunta olhando diretamente nos olhos de quem a fez, além de ser muito direta — tanto que se define apenas com uma palavra: caráter.

Essa é a Lydia. Casada, mãe de dois filhos, e que se diz uma apaixonada pela vida que leva. “Eu me sinto super realizada. Meus filhos são perfeitos. Eu amo tudo que tenho”, destaca. Como ela mesma diz: “o óbvio está sempre no nosso nariz, mas ninguém dá valor a ele”. Das cores do ambiente às joias, dos filhos aos hobbies, aí está o diferencial de Lydia: no reconhecimento de tudo que é feito com carinho.

Texto  e diagramação de Guilherme Zanette (32 33 Capa Lydia 34 35 Capa Lydia 36 37 Capa Lydia), originalmente publicado na revista Public First Class. Mais notícias do universo do luxo no site: www.publicfirstclass.com.br.

 

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Um pensamento sobre “Lydia Leão Sayeg: Um diamante lapidado com carinho — Capa da Public First Class, ed. 22

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