Maurício Queiroz: Muito além da Arquitetura — Capa da Public First Class, ed. 23

988648_619345318084725_1222450203_nIncansável na busca pela excelência de seus projetos, o arquiteto Maurício Queiroz destaca dentre suas qualidades a resiliência. Flexível, ele soube adaptar-se às exigências de mercado e foi além: uniu conceitos de Propaganda e Marketing em seu trabalho, fazendo parte de um seleto grupo de profissionais que desenvolve o “Design de Consumo”. Foi esse tipo de trabalho que culminou em assertivos projetos, como a primeira flagship da Montblanc no Brasil, a criação da marca Etna e o reposicionamento de marca da Vivara. E são os desafios de contribuir para as marcas que o move. “Quando consigo resolver uma questão me sinto completamente seduzido a buscar mais desafios. Creio que em uma vida passada já fui um caçador”, brinca.

De acordo com o arquiteto, o termo design de consumo faz parte de um processo no qual se entende que a arquitetura comercial não é formada apenas pelo projeto de decoração e sim pela materialização de uma série de fatores, como sexo, hábitos de consumo, DNA da marca, compra programada ou por impulso, auto-atendimento ou venda consultiva e tipo de exposição (massiva, sugere custo x benefício ou pontual, peças caras e exclusivas). “Em resumo, é a ciência que compreende a relação entre o consumo, a marca e o consumidor”, explica, acrescentando que oferece ao empresário a noção de branding do seu próprio negócio. “Eu espelho a marca como ela é percebida pelo público e apresento os pontos falhos e fortes a serem ainda mais explorados, a partir de elementos reais disponíveis no próprio mercado, como pesquisa, por exemplo.”.

Mas o profissional percorreu um longo caminho antes de adentrar a essa ciência. Ele relembra sua infância e nos conta que adorava desenhar nas paredes de casa, fazendo com que seus pais comprassem vários materiais de desenho. “A partir daí, não parei mais. Iniciei a Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie, mas no 4º ano fiquei em dúvida e pensei inclusive em parar o curso”, lembra.

Nessa época, ele foi trabalhar com o pai por algum tempo e, com essa experiência, percebeu que a Arquitetura era mesmo seu caminho. “Foram vários fatores que me fizeram apurar o senso crítico e estético no Brasil e em viagens. Uma lista interminável que vai de Ramos de Azevedo (arquiteto) a Frank Lloyd Wright (arquiteto); de Carlos Drummond de Andrade (escritor) a Anish Kapoor (artista plástico)”, esclarece.

Terminada a faculdade, o passo seguinte foi a criação do escritório Maurício Queiroz Arquitetura, que iniciou suas atividades em 1994, primeiramente atuando nas áreas de arquitetura, gerenciamento e design de interiores comerciais. “Viajei por cinco meses e morei por dois anos em Barcelona, onde trabalhei em vários escritórios e estudei na politécnica de Catalunha. Isso foi essencial para conhecer novas culturas e comportamentos”.

Essas novas experiências foram decisivas para que focasse, após alguns anos, em projetos comerciais e depois, com mais profundidade, no design de consumo.

Aliás, essa união entre Arquitetura e Marketing surgiu da paixão de Queiroz pelas duas áreas. “Sempre gostei de Design, Arquitetura e Artes. Mas me seduz muito o lado subjetivo do brand, da Propaganda e do Marketing e quando descobri que com design de consumo conseguiria unir o lado estético do design e a questão emocional que envolve as marcas, tive certeza de que era o meu caminho”, confirma.

Seus projetos contemplam basicamente três tipos de clientes: os que planejam explorar um novo segmento na própria empresa, os que querem abrir uma nova e os que desejam um reposicionamento de marca. Hoje, com mais de 20 anos dedicados à profissão, sobram cases para explicitar os três casos. “Mas sempre me identifiquei muito com projetos que podemos começar do zero e crescer juntos”, emenda.

Para a Montblanc, o escritório criou a identidade da marca ao chegar ao Brasil e projetou a loja localizada na rua Oscar Freire, flagship da marca no país. A grife de joias Pandora também contou com projeto de Maurício Queiroz: a marca dinamarquesa chegou ao país com a maior loja da rede no mundo, em um conceito ousado e inédito. Graças a Queiroz, a logística da empresa também foi mudada. Isso porque ele conseguiu uma autorização da direção da Dinamarca para viabilizar e criar todo o mobiliário para a loja no Brasil, de forma que esta é a única loja a ter um mobiliário diferente ao padrão adotado por todas as outras unidades no mundo.

Ainda no segmento do luxo e premium, foram feitos trabalhos para a Faber Castell (elaborou projeto de pontos de vendas estratégicos da linha premium), Vivara (redefiniu o posicionamento da grife para atingir o público da classe A), KitchenAid (projetou a primeira flagship do mundo), e Empório Naka (propôs alteração do layout de todas as lojas de shopping).

Em outros ramos, atendeu a Etna, sendo responsável pelo processo completo de criação da marca e a Nextel, quando desenvolveu a nova identidade da marca que passou a atender também o cliente pessoa física. “Difícil dizer qual o mais expressivo, pois são todos resultados positivos por fatores distintos. Na Etna, tivemos a possibilidade de desenvolver o conceito, o design do ponto de venda, cardápio do restaurante, e até o cd com a trilha sonora da marca. Para a Montblanc, foi a primeira flagship da marca na América Latina. Para a KitchenAid, a primeira no mundo; para a I-Stick, foi um projeto premiado pelo RDI Internacional. Para a Plus, o primeiro projeto na Europa. O importante não é selecionar um, mas conseguir guardar todos esses cases com um carinho especial”, conta.

E o segredo para que cada um dê certo é uma fórmula que coloca o foco no cliente final. “O projeto deve ser destinado a ele e não aos gestores do negócio. O importante é conhecer a fundo o DNA da marca e o público alvo. A partir daí, tenho parâmetros para iniciar um projeto. É um trabalho delicado, muito próximo da cenografia”, explica. E acrescenta: “O pior defeito de um profissional é ser escravo de suas próprias vontades”.

O tempo precisa ser um aliado, nesse sentido. Segundo o designer, apesar de cada planejamento ser único, a concretização pode durar de dois meses a um ano. “Temos nosso objetivo ‘Taylor made’ (sob medida) para a marca, que em alguns casos temos um briefing muito definido do que é o negocio e o trabalho acaba sendo bastante assertivo. Em outros, começamos do zero discutindo o que seria o negócio, exemplo de uma indústria que quer começar uma operação de varejo”.

Também há diferenças no trabalho com relação ao segmento em que a marca atual. “As marcas de luxo, em geral, tem padrões de acabamentos e materiais exclusivos desenvolvidos especificamente para elas”, conta. O designer também comenta que, no caso das marcas internacionais, muitas que vem para o Brasil têm a vontade e a necessidade de desenvolver aqui os mesmo materiais utilizados no exterior e que foram criados para a marca. “É um brand a ser respeitado!”

No entanto, de acordo com ele, outros segmentos apresentam outras preocupações, como o custo de implementação e prazos reduzidos, que são valorizadíssimos. “A questão do design não é deixada em segundo plano, mas é tida como suposta parte integrante do trabalho de um bom profissional (o bom design e inovação já fazem parte de um bom projeto, mas os prazos reduzidos são um grande diferencial nesse tipo de mercado)”, explica.

No exterior, trabalhou para as marcas Boutique de Relógios, Boutique de Relógios Plus e Time to Be, todas em Portugal. “Nossos clientes de fora do Brasil costumam viajar muito para pesquisas e no que diz respeito ao Brasil o atendimento que temos é muito valorizado. Em algumas dessas visitas, alguns clientes já conheciam nosso trabalho in loco e acabaram tendo um primeiro contato e nos procurando, formando assim parceria. Mas ter um histórico positivo ou clientes com vários anos de casa faz muita diferença”.

Crescendo a cada ano, o escritório já conta com mais de 20 profissionais, entre arquitetos, engenheiros,  designers e administradores. “Minha relação com eles é muito saudável, o importante é a comunicação e a liberdade que damos para tal. Hoje me sinto confortável para delegar várias funções e sinto que temos um time”, conta. Como líder, Maurício se define como bem humorado. “Mesmo diante situações mais críticas ou sérias. As situações boas aparecem para que desfrutemos e as difíceis para nos fazer crescer. No final, sempre tudo é bom”, filosofa.

Casado, pai de duas filhas, o designer, de 45 anos nos conta que a principal satisfação que o trabalho lhe confere é a materialização dos projetos. “Sempre começo o projeto desenhando em pedaços de qualquer papel — muitas vezes guardanapos. Criamos tudo no plano mental, de uma janela, até a rodinha de um móvel e, por incrível que pareça, no final ela vai existir. É a sensação de ser pai diariamente!”

Da rotina de reuniões com clientes, fornecedores e equipe, ele tira a sedução para buscar novos desafios. Sempre caçando formas de melhorar, um Maurício modesto aparece quando perguntamos sobre seus planos. “Sobreviver e continuar fazendo o que gosto independente do que seja. Fotografar e velejar com certeza estão nos planos”, finaliza.

Texto de Guilherme Zanette, originalmente publicado na revista Public First Class. Mais notícias do universo do luxo no site: www.publicfirstclass.com.br.

 

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