Ricardo Amaral: Coragem para correr riscos — Capa da Public First Class, ed. 16

Ricardo AmaralRicardo Amaral apostou e ganhou. Ele saiu de uma multinacional, que era a maior corporação que trabalhava com cruzeiros, e foi para uma empresa familiar que tinha dois navios. Saiu de lá muito bem sucedido financeiramente para uma empresa que abriu do zero, uma ‘start up’. Tudo isso deu certo. E tanta visão fez dele, que é professor doutor, o diretor geral da Royal Caribbean e presidente da Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos. E estamos falando de um homem de apenas 40 anos.

Na mitologia grega, existia um rei chamado Midas, detentor de um poder especial: tudo que ele tocava virava ouro. Não há muito espaço para mitologias na carreira de Ricardo Amaral e as coisas para ele não se resolvem num simples toque, mas há muito do que se falar sobre a vontade, dedicação, percepção e trabalho do administrador, também presidente da Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (Abremar). Com passagens por grandes empresas do setor turístico, Ricardo, de apenas 40 anos de idade, metade deles dedicados ao mercado de cruzeiros, fez uma carreira de ouro, movido principalmente pelo desafio. “Eu tenho um perfil bastante cinético. Se fosse dar uma classificação, eu diria que sou multimídia. Faço várias atividades e gosto de fazer essas várias atividades com começo, meio e fim”, esclarece ele, casado, pai de um filho, num ensaio de autodefinição.

Essa carreira de ouro começou a ser lapidada quando ele era ainda muito jovem. Seu espírito empreendedor começou a aflorar aos 13 anos, período em que estava na escola. “Eu fui comprar roupas com minha mãe e percebi que a loja vizinha da qual ela comprava — por ser uma loja da fábrica — tinha preços melhores.” Então, o atento Ricardo viu uma pessoa comprando grandes quantidades de roupas, pagando com cheque para 30 dias e perguntando: “O que eu não vender, eu posso trocar?”. Foi a partir daí que o instinto roubou a cena. Ricardo foi procurar saber um pouco mais sobre isso e entendeu o significado de venda em consignação. “Comprei e dei um cheque para 30 dias. Usei as roupas na escola e isso despertou a curiosidade dos amigos. Peguei um saco e virei o homem do saco preto, vendendo tudo que podia. Mas não deu certo por muito tempo porque o diretor percebeu que eu usava a sala de estudos como meu showroom e determinou que nada mais fosse comercializado”, lembra. No entanto, a aptidão empresarial já corria em suas veias.

No auge dos seus 20 anos, em 1990, a experiência de homem do saco se repetiu. Ricardo fazia dois cursos: Hotelaria e Administração, quando fez um acordo com um amigo que já tinha cursado Administração. Ricardo resolveu comprar os livros dele, mas ele vendia camisas muito boas. O amigo propôs que ele comprasse cinco camisas e, em troca, daria os livros. Então Ricardo iniciou uma negociação. “Como as camisas eram muito boas, comprei um saco e retomei minhas atividades de vendas, na faculdade”. E ficou com os livros. Porém, Amaral parou o curso de Administração quando seu pai faleceu. Seguiu em Hotelaria e fez carreira acadêmica.

Mas ele teve essas experiências profissionais por conta própria. Para começar a trabalhar, Ricardo recebeu um empurrão, o primeiro de sua vida. “Minha mãe tinha uma amiga, que era diretora financeira administrativa de uma rede de hotéis e ela me arrumou um emprego como auxiliar de escritório, fazendo conciliação de cartão de crédito”. Ele aceitou o emprego porque até então tinha feito só estágio, mas nunca havia trabalhado. “Fiquei um mês lá e fui convidado a trabalhar em outro lugar, na rede de hotéis Eldorado”, relembra o empresário, completando que nesse período também trabalhou junto com amigos que davam uma consultoria para implementação do departamento de compras. “É claro que [para o emprego] fui seduzido porque o cara falou que eu ia ser gerente de compras, e eu pensei ‘ah, que legal, tenho 20 anos e já vou ser gerente’”, brinca.

tanto que foi procurar na concorrente um curso sobre cruzeiros marítimos. “Na época, a Linea C dava o curso e eu liguei pro pessoal da empresa e falei que mesmo sendo o concorrente, eu queria participar. Eles foram relutantes e não me quiseram aqui em São Paulo para o curso, mas tinham um no sábado em Campinas às 8 horas da manhã. Fui, fiz o curso e aí tinha uma prova. E eu tirei a nota mais alta…” Tanta aplicação rendeu uma proposta de emprego em algumas semanas subseqüentes ao curso. A proposta foi para a área comercial da Linea C. E ele aceitou, e viu horizontes nessa empresa, que talvez outros não veriam, seduzidos pelo dinheiro. “Na época eu fiquei até em dúvida porque a Linea C tinha dois navios e que vinham três meses ao Brasil. A empresa que eu trabalhava tinha todos os navios do mundo.” Atualmente, a empresa onde Ricardo trabalhava mal existe e a Costa Cruzeiros (ex-Linea C) está entre as maiores operadoras de cruzeiros marítimos. “Ela cresceu muito — e eu acho que contribui pra isso. Acabei passando sete anos na Costa Cruzeiros.” Na empresa, Ricardo foi responsável pelo primeiro site da marca, que funcionava como um shopping virtual.

A proposta para saltar da Linea C para a Royal Caribbean partiu de Dado Nascimento, que durante seis meses convidou Ricardo para uma empresa familiar representante da Royal Caribbean, na época um start up. “O desafio me pareceu interessante e resolvi aceitar. A Royal Caribbean se estabilizou no mercado, desenvolveu a marca, teve sucesso comercial e financeiro no Brasil. Fiquei quase 10 anos lá, eu passei nove anos na Sun&Sea.” Em janeiro de 2009, a Royal convidou Ricardo para capitanear o movimento de abrir um escritório no Brasil. “Eu comecei efetivamente na Royal Caribbean em janeiro de 2009. Vou completar dois anos de Royal, mas quase 11 de marca. E, então, eu saí atrás de espaço, de gente, de computadores, de sistemas que fizessem tudo funcionar.” E logo no primeiro ano, os objetivos foram superados: 5% a mais de ocupação e de receita e 8% a mais de consumo a bordo. “Fizemos uma recuperação, porque as vendas estavam muito fracas, muito ruins. Foi um grande sucesso.”

Com apenas 40 anos, Ricardo chegou ao posto de diretor geral da Royal Caribbean, cargo mais alto dentro da empresa na América Latina, e hoje chefia uma equipe de 84 funcionários baseado num lema: “sugerir é criar, definir é matar”. Para o diretor, só assim as pessoas podem buscar o próprio caminho. “Normalmente, se você der esse espaço, vai se surpreender com o resultado. Mas se você disser para a pessoa o que ela deve fazer, você não está ensinando nem desenvolvendo. E como sou professor há muitos anos — fiz mestrado e doutorado —, sou muito preocupado em ensinar,  em  informar ”,  completa,  e emenda: “Eu também aprendi muito e acho que sempre aprendo com os outros”.

E ele não hesita em pedir conselhos. “Quando ganhei uma promoção, eu perguntei para um outro mentor, diretor da assinatura da Editora Abril, se eu devia fazer meu currículo e procurar alguma coisa para ser diretor de marketing e ele falou ‘não, calma, alarga o degrau. Porque se você passar para diretor de marketing, o número de posições para você atingir é muito pequeno. Então se você dá uma subidinha na escada e cai, depois pra subir de novo é mais difícil’”. Ele seguiu o conselho, alargou o degrau e viu sua subida natural até o cargo mais importante da empresa — além de chegar à presidência da Abremar. “A Abremar tem uma postura bastante arrojada hoje. Nós alcançamos avanços significativos. Eu estou no meio do meu primeiro mandato que termina só em 2012, mas o que nós já conseguimos foi incrível. Finalmente alcançamos um diálogo com o governo, com as autoridades”.

E, no ensino, Ricardo também se destaca. Formado em Hotelaria, com pós-graduação em Administração com especialização em Marketing, Ricardo ainda fez mestrado na Universidade de São Paulo (USP), como Publicidade e Propaganda e Turismo. Concluiu o doutorado em 2009 falando sobre cruzeiros marítimos. “Eu acredito naquele lema ‘sorte é estar preparado para a oportunidade’. Então, quando as oportunidades apareceram, eu era a pessoa certa, no local certo, com a experiência certa.” Com esse currículo acadêmico extenso, Ricardo ainda toma seu tempo lecionando. “Dei aula no Anhembi Morumbi, no Senac, na USP e no meio dessa história toda, ainda escrevi um livro que se chama Cruzeiros Marítimos, o único livro em Português sobre o tema.” Ele conta que só 15% dos livros no Brasil vão para uma segunda edição — e o seu foi.

Aí vem a pergunta. Com uma vida dessa, toda recheada no lado profissional, ainda sobra tempo para cuidar de prazeres na vida pessoal? Sim, Ricardo consegue. “Eu tenho meus hobbies. Eu corro… fiz uma maratona em 2006, a maratona de Chicago, aí eu achei que não era suficiente e participei do Iron Man em 2008. Nesta prova, você nada 3.800 metros, pedala 180 quilômetros e corre uma maratona de 42 quilômetros no final”. Ele também tem um filho, Rafael, de um ano e meio. “Comecei uma nova etapa… agora estou aprendendo”.

E quem vê seu impecável currículo, com tão pouca idade, não imagina o quanto ele se esforçou. “Eu tive sorte, mas trabalhei nos finais de semana, de noite, de dia, na hora do almoço. E sempre trato todo mundo com respeito e atenção, independente de qualquer coisa”,  completa  o administrador inquieto. Inquieto? Ele responde: “Eu acho que a zona de conforto não é algo que me deixa feliz. Todas as vezes que eu fiz alguma mudança significativa na minha vida foi impulsionado por algum desconforto, nem que fosse estar na zona de conforto por algum tempo. Mas você tem que entender também se essa inquietação é alguma coisa positiva. Eu sou um inquieto pró- ativo. Estar inquieto e bater o pé não leva ninguém a lugar nenhum”, moraliza.   “Eu não posso chegar aqui e falar ‘ah, agora eu não tenho objetivo… já fiz o Iron Man, escrevi um livro, fiz o doutorado, eu já tenho a posição máxima na empresa aqui no Brasil’. E o que fazer agora? Você vai fazer as coisas darem certo, curtir isso e contribuir para melhorar a vida de outras pessoas.”

E ele se julga um vendedor? “Talvez eu esteja numa posição agora em que estou muito mais administrando um negócio, para que essa venda tenha um resultado final adequado, do que efetivamente vendendo um produto. Mas a estratégia, a inteligência por trás disso, com certeza é minha. Eu que estou olhando, eu que tenho a visão”. E afirma categoricamente: “Eu estou com a mão, o dedo e o pulso no negócio! Todo mundo é um vendedor. Você tem que estar acompanhando a história”.

Inquieto, simpático e equilibrado, Ricardo certamente não tem o poder de Midas, mas vem escrevendo um capítulo de ouro na história dos cruzeiros marítimos — e fez isso com muito trabalho e nada de magia.

Texto  e diagramação de Guilherme Zanette (26-27 Capa Ricardo Amaral 28-29 Capa Ricardo Amaral 30-31 Capa Ricardo Amaral), originalmente publicado na revista Public First Class. Mais notícias do universo do luxo no site: www.publicfirstclass.com.br.

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