A riqueza da luz em um dia de trevas

E quanto mais você escavar, mais ouro encontrará; com uma hora e seis segundos, Light of Day, Day of Darkness (cuja letra correta você encontra aqui) é o símbolo esfíngico da maestria e riqueza do Green Carnation, que não poderia ser melhor representado senão pelo nascimento do filho de Tchort (ex-Emperor), guitarrista e compositor dessa obra prima. Na música, única do álbum de mesmo nome, as trevas (a morte da filha do compositor) são escondidas pela luz (o nascimento do filho).

A letra ressalta os momentos certeiros de um sonho, com descrição rica e merecida de um cenário inconsciente. O detalhe é que há, sim, letra para uma hora de música – e o melhor: o encadeamento das idéias é privilegiado, o que dá a sensação de uma continuidade cronológica. As partes poéticas servem como apoio essencial ao processo de sonho, que nem sempre é moldável com exatidão à realidade.

Outro motivo que leva a acreditar na riqueza encontrada tanto quanto mais se aprofundar na música diz respeito aos arranjos da composição. À melodia, introduzem-se elementos musicais de vários ritmos, porém não misturados desarmoniosamente, mas com uma seqüenciação que beira o perfeito. A bateria e o teclado, por vezes, nos dão a sensação de um ar sombrio na luz de um dia, que é, na verdade, de escuridão. A guitarra conduz a acreditar que a música não perde seu ânimo do começo ao fim e, mesmo quando esse entusiasmo pára, no momento em que o soprano entra em ação, subsequentemente, ele volta reconduzindo todos os atentos ouvidos ao status que os havia deixado. Os vocais de Kjetil Nordhus são excepcionais e as interpretações das questões levantadas nas letras (“Why do you torture me?”, “Will I forsake or will I forsaken be?”) idem!

(Com eles, totalizaram-se 34 músicos, incluindo um coral de crianças.)

Quantas vezes ouvimos o som de uma banda e queremos mais, pois essa só se deu ao trabalho de compor três minutos? Quantas vezes ouvimos 20 minutos e percebemos que 10 desses são puramente enrolação? A duração perfeita é, amiúde, questionada, pois, quando gostamos, queremos mais e, do contrário, queremos redução. Uma hora e seis segundos de Light of Day, Day of Darkness configuram a primazia de uma música que está completa, atingindo o seu nível máximo de exatidão e que, portanto, não precisa ser nem reduzida, nem aumentada.

Ver o tamanho da música pode desanimar qualquer um a ouvi-la. Mas, não é verdade que haja embolação de alguma forma nela.

E quanto aos shows da banda: eles tocam essa música? “As respostas para os nossos shows têm sido fantásticas. Para ser honesto, não sabíamos se seria possível tocar Light Of Day, Day Of Darkness ao vivo. Felizmente foi mais que possível. Provavelmente, não somos a banda mais excitante de se assistir, mas a música é a maior prioridade ao vivo e acho que o público pegou essa idéia”, disse o modesto Tchort ao Whiplash. Certamente, é sim das mais excitantes. Tanto é, que assim foi concebido pelos fãs e críticos, estes elegendo como álbum do mês da revista Metal Hammer alemã, e aqueles que asseguraram uma ótima vendagem ao álbum, superando, inclusive, o primeiro da banda, o Journey to the End of the Night.

Se para Tchort, o álbum é tratado como sendo seu “legado musical”, para o metal, a música não deveria assumir uma posição menos honrosa que uma herança brilhante, e que ouro nenhum poderia pagar.

E como torço para que bandas brasileiras cavem o bastante nesse terreno do Light of Day e usem a riqueza encontrada em proveito próprio, aprimorando suas letras e melodias!

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