Baleado pela agonia

(Texto para a disciplina de Jornalismo Literário sobre a depilação com laser)

Um tiro. Dois. Três. Quatro. E a sequência continua. Tudo no rosto. E o que é pior: eu sabia que não morreria. Tiros que propagam a dor. Eu queria mais era uma auto-flagelação naquele momento. Eu queria sentir dor em outra parte do corpo, dar um beliscão na coxa, para perceber que não era só meu rosto que sofria, que não existia uma dor só, desequilibrada e sentida somente na parte do corpo que é o cartão de visita de qualquer ser humano, essa parte que traz conosco algumas marcas do passado e as expõe para o mundo, embora nem todos tenham talento para enxergar… E eu sabia que, ao sair daquela sala branca, eu demonstraria para o mundo que a pele do meu rosto passou por um ataque sem igual, quase uma mutilação.

Tudo isso foi resultado de uma grande ideia para deixar de se esconder por detrás de uma barba. Porém, se eu tivesse sentido a dor de um tiro, eu realmente nunca teria tal ideia — continuaria com as lâminas. Com a arma apontada para minha face, o gatilho é apertado, vem o primeiro sinal de dor e com ele certos pensamentos…

— Por que diabos tirar a barba com laser, Guilherme, seu animal? — dizia o Guilherme sarcástico de dentro de mim.

— Essa é a dor, agora vamos lá que ainda temos muitos tiros por hoje. — disse a simpática ou irônica médica, segurando sua pistola do laser Light Sheer®, cuja potência de 60 watts iria ainda destruir o resto da minha face.

Mas, vamos continuar no primeiro tiro. A dor provocada por ele me fez, em tão pouco tempo, pensar que aquele era só o primeiro de muitos tiros daquela sessão, e que são quatro sessões, e que eu não aguentaria tudo porque sou um fracote, e que meu pai já havia pagado as tais sessões então teria que sair de mim um Rafael Nadal¹  e enfrentar aquilo tudo, e que seria engraçado eu voltar a acreditar em Deus naquele momento porque eu sabia que mais uma vez ele demonstraria que não existia e não cessaria a dor que estaria por vir, e que mais tarde eu teria terapia psicanalítica, e que há pouco tempo eu tomei um pé na bunda e ainda estava doendo, e que apesar daquilo DRZZZZ — o segundo tiro — o meu coração angustiado estava deixando de — DRZZZZ — existir.

E ela foi atirando. DRZZZZZZZ. E eu — pobre de mim, esse fraco mortal — pensando já na morte como escapatória daquela série de agressões, tentando acostumar-me com a ideia de que aquilo era benéfico pra mim. Comecei a me contentar — se é que aquilo era possível naquele momento — que os folículos pilosos, popularmente conhecidos como pêlos, estavam morrendo e que nunca mais eu precisaria comprar — DRZZZZZZZZZZZ, AI, DROGA!! — uma Gilette na minha vida.

Não sei se consigo explicar a dor. Para muitas pessoas, tirar a sobrancelha com pinça é a morte. Para outras, um cortezinho na mão já é motivo para uma semana gemendo de dor. Já rompi os ligamentos do tornozelo direito e isso era a minha máxima referência de dor. Mas nada supera os tiros de uma pistola de laser. Acredite. Pensar em algo semelhante é complicado, eu nunca havia sentido dor igual à provocada pelo laser. Mas vamos tentar até onde minha imaginação permite chegar: cinco agulhas com fogo entrando no seu rosto, se contorcendo lá dentro e saindo. E isso é só UM tiro.

A médica divide o rosto em partes. Primeiramente, a parte direita, que vai debaixo da costeleta até o pescoço. Depois, a esquerda, no mesmo esquema. Após isso, vem o queixo, a parte inferior da boca, até a parte central do pescoço. E, por último, o bigodinho. Ai, o bigodinho…

Quando ela terminou a parte direita, eu já queria ir embora, lógico. Mas ninguém gasta R$ 1.900,00 reais à toa, não é mesmo? Então fiquei e esperei pelo resto. Sabia que não poderia ser pior, não é verdade? Mas era. Enquanto ela já estava na parte esquerda, a direita, ao qual ela já havia aplicado todos os tiros, começava a arder. Então, você conhece o pior lado da dor, o latente. Por tanto tempo eu disse que sofria, que estava doendo e que aquilo era a pior coisa do mundo, mas aí vem um bendito laser e tira o título da angústia como a pior coisa do mundo. Aí, eu tento equilibrar o lado da dor com o lado da ardência e vejo que isso é impossível, quando surge um pormenor: o cheiro. A fragrância de queimado do churrasquinho que faziam da minha pele de nada lembra o momento agradável dessas festas juvenis com carne à vontade e muita orgia. Remetia-me ao inferno e eu lá, todo bonitão, em chamas.

Nesse momento, algumas palavras saíam da minha boca mais pela ânsia de mexer os lábios numa articulação frenética e provar pra mim mesmo que eu ainda estava vivo que pelo conteúdo das palavras.

— Dói demais. Se eu soubesse, eu não fazia. Tem pessoa que volta aqui depois de fazer a primeira sessão? Eu odeio minha barba. Por que é tão grossa? E grossa dói mais, não é? — eu dizia, bombardeando a médica com conversas e perguntas cujas respostas eu já sabia, enquanto ela me bombardeava com tiros.

— Dói mesmo, mas você vai sair daqui mais jovem, mais bonito e renovado. Você está indo muito bem até agora, então vamos continuar.

Dali em diante, eu já sentia todos os sentimentos típicos de uma sessão como essa: a honrosa e famosa dor, a deliciosa e charmosa ardência, o elegante cheiro de morte por cremação e os estágios mais acelerados de agonia, quase uma histeria, quase uma vontade maluca de dar um soco na médica, mandar ela praquele lugar, destruir a máquina, derrubar a maca, gritar com a assistente que não passava gel suficiente na minha cara, quebrar as janelas, dar cadeiradas no ar-condicionado, esse vilão que me fazia com que eu me sentisse um bipolar, uma hora sentindo frio, outra sentindo calor por causa das aplicações de laser.

E chegamos ao ápice da dor: o bigodinho. Em volta dos lábios: uma delícia sem igual.

— Aqui vai doer um pouquinho.

Como assim? Até agora não doeu, então, sua louca? Você acha então que eu estou fazendo drama, diabo?

Mas é. Eu entendi o que ela quis dizer. No entanto, foi mais rápido. Quando ela disse “só mais um tiro”, eu quase me enchi completamente com aquela força Rafael Nadal, não fosse o fato de ela não dar tempo pra isso e atirar quando eu estava na metade da busca por forças internas.

E acabou. Fui para casa. Mais de 400 tiros. Finalmente acabou.

Mentira!

Agora só começou. Duas horas ininterruptas de ardência, num estado psicótico que fazia de mim um verdadeiro agoniado, um sedento por instintos, por qualquer coisa que viesse à mente. Comi bolacha, maçã. Tomei leite. Deitava. Ia pro sofá e tentava ver TV. Levantava e pulava, sem saber por que eu estava fazendo aquilo. A vontade de chorar era enorme, mas não sabia pra que choraria, já que não adiantaria nada. Gritei. Bati na minha cachorra. Sentia como se tivesse sem restrição alguma pra fazer o que sempre quis fazer. Agora, só os instintos existiam. O Guilherme racional morreu. O inconsciente dizia “Guilherme, pula” e o bobão pulava. E ninguém estava em casa. Eu queria conversar, então falei sozinho.

E aí, as duas horas acabam. Finalmente acabou.

Não. Era outro começo: o da percepção do resultado. Com a cara inchada, eu parecia um monstro. Parecia não, pareço… ainda estou na terceira sessão, falta a última. E, embora a maioria dos pêlos já tenha ido embora, vai demorar um pouco para eu parar de ter pesadelos acordado com uma mão passando gel no meu rosto, uma pistola de laser massageando e DRZZZZZ.

¹ O tenista Rafael Nadal é, atualmente, considerado a melhor “cabeça” do tênis mundial. Isso porque nos momentos de adversidade, Nadal encontra força para superar os oponentes.


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