Entrevista com Flávio Gikovate

“O casamento deveria unir duas pessoas inteiras, não duas metades tentando se completar.” Quem expõe esse argumento é o respeitado médico psiquiatra Flávio Gikovate, que em entrevista exclusiva para aPublic First Class destaca que o amor romântico, aquele que vemos nos filmes, está com os dias contados. Segundo o autor, os relacionamentos precisam respeitar a individualidade do outro para darem certo. “Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.” Com 30 livros publicados, o tema das relações humanas é freqüente em suas obras, que juntas já somam mais de um milhão de livros vendidos. Gikovate tratou, ou ao menos pincelou, o tema casamento e relações amorosas em alguns dos seus livros, como Sexo (2010), Uma nova visão do amor (2009) e Uma história do amor com final feliz (2008), todos lançados pela MG Editores; além disso, deu palestras e escreveu artigos sobre o tema. Confira abaixo os principais momentos da entrevista:

O que o senhor pode nos dizer a respeito da instituição “casamento” nos dias atuais?

Muitos casamentos entre opostos, com a idéia de fusão, ainda vão acontecer antes que as pessoas se dêem conta de que não dá mais para insistir nesse tipo de relacionamento. O casamento deveria unir duas pessoas inteiras, não duas metadas tentando se completar. Enquanto persistir esse pensamento equivocado, as separações só tendem a aumentar. Com base nos atendimentos que faço e nas pessoas que conheço, não passam de 5% os casais que vivem felizes. A imensa maioria é a dos mal casados. São indivíduos que se envolveram em uma trama nada evolutiva e pouco saudável. Vivem relacionamentos possessivos em que não há confiança recíproca nem sinceridade. Por algum tempo depois do casamento, consideram-se felizes e bem casados porque ganham filhos e se estabelecem profissionalmente. Porém, lá entre sete e dez anos de casamento, eles terão de se deparar com a realidade e tomar uma decisão drástica, que normalmente é a separação.

Casamento e amor andam lado a lado?

Primeiro é preciso entender que o amor romântico, apesar de aparecer o tempo todo nos filmes, romances e novelas, está com os dias contados. Esse amor, que nasceu no século XIX com a revolução industrial, tem um caráter muito possessivo. Segundo esse ideal, duas pessoas que se amam devem estar juntas em todos os seus momentos livres, o que é uma afronta à individualidade. E a individualidade é algo que ninguém mais aceita negociar nos dias de hoje. Por isso, os casamentos terão de ser repensados. A união se dará entre pessoas maduras emocionalmente.

O que faz o casamento dar certo? Afinidades ou pontos de vista conflitantes?

Com certeza são as afinidades. As relações afetivas estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor. O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar. Quando há qualidade, as chances de o relacionamento durar são bem maiores.

O que seria melhor: casar sem estar apaixonado, mas sabendo que a pessoa com quem se está casando divide muitos dos seus gostos, ou casar pura e simplesmente por estar apaixonado, sem que haja afinidades?

Opto sempre pela relação entre duas pessoas inteiras. Não podemos responsabilizar o outro pelo nosso bem-estar. Essa é uma luta individual. Os maridos não serão mais protetores ou provedores nos relacionamentos baseados no que chamo de +amor [sentimento que respeita a individualidade, segundo Gikovate]. Terão de ser encarados como companheiros, parceiros de viagem. Mas isso só é possível para quem conseguem trabalhar a individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.

Se um casamento acabou, podemos dizer que não deu certo. Mas há muitos casamentos que não acabam e nem por isso tenham dado certo, correto?

Tenho insistido no conceito de que caminhamos para uma mudança profunda nas relações afetivas. No futuro, ou existirão relacionamentos afetivos de ótima qualidade, onde os casais aprenderão a desenvolver uma vida sexual igualmente rica; ou então existirão pessoas solteiras, vivendo o sexo como fenômeno pessoal e/ou mantendo relacionamentos afetivos mais superficiais e passageiros. Não vejo futuro para as relações de qualidade média. É assim: a vida a dois terá de ser melhor do que viver só. Como viver só está cada vez melhor, todos os relacionamentos que forem de qualidade inferior a essa vida tenderão a desaparecer.

O fato de, antigamente, os homens darem as cartas e as mulheres obedecerem e, hoje, os dois pensarem e terem independência, é um ponto que contribui para a separação?

As mulheres de hoje buscam relações afetivas de qualidade. A evolução, certamente, explica o fim dos casamentos de má qualidade. Mas insisto em dizer que é a ideia errada do que é o casamento atualmente é o que mais tem contribuído para as separações. Quem se acostuma a viver vários relacionamentos que acabam não dando certo, está insistindo nessa noção de amor antiquada, que não leva em conta que o mundo mudou. A mulher tornou-se independente econômica e sexualmente e pôs fim a estabilidade conjugal. Há também o avanço tecnológico, que propicia ainda mais a individualidade. Quem ignora esses avanços, continua procurando um parceiro que seja o seu oposto para se sentir completa. Voltamos à relação problemática de unir duas metades, quando deveriam ser dois inteiros.

Por que você acha que os indivíduos fascinam-se pelas histórias amorosas (em livros, por exemplo) ao mesmo tempo em que fogem delas na vida real?

As pessoas gostam mais de sonhar com o amor do que viver uma relação correspondida para valer. Uns amam sem ser tão amados. Outros são amados, mas não amam. Poucos amam e são amados da mesma forma. Parece que a maioria das pessoas tem dentro de si um grande medo do amor, medo que predomina sobre o desejo. Assim, prevalece o medo de perder a individualidade e, principalmente, o medo da felicidade.

Por que a felicidade amorosa causa tanto medo?

O medo da felicidade é assim: quando tudo está bem, as pessoas acham que vai cair um raio na cabeça. Parece que a felicidade atrai uma tragédia. O medo da felicidade está na origem da superstição. As pessoas batem na madeira, fazem figas, vários rituais de proteção. É como se a felicidade repetisse o problema do parto outra vez. O primeiro registro cerebral é que estava tudo bom no útero. O segundo é a dramática ruptura. Então o indivíduo fica achando, quando está tudo bem, que vai haver outro Big-Ben. Enfrentar o medo da felicidade é um passo fundamental para viver em paz. Costumo dizer que há quatro requisitos básicos para vencer o medo: maturidade emocional, definida como boa tolerância a frustrações e sofrimentos de todo tipo; maturidade moral, ou seja, a superação do egoísmo original sem se deixar levar depois pela trama dos sentimentos de culpa; uma razoável saúde física; e uma atividade profissional capaz de nos entreter e de nos prover das condições materiais necessárias para uma vida digna e confortável. É importante saber que a felicidade pode ser perigosa quando implica utopias e expectativas inalcançáveis. Por isso, não se deve deixar de considerar os possíveis momentos de infelicidade, que são compulsórios e fazem parte da condição humana.

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