O fogo anterior à explosão

Paradise Now mostra a ebulição interna dos homens-bomba, num filme que prega a paz através da conversa

A compensação, em vida, para os futuros mártires — os homens-bomba palestinos — vem caracterizada de uma conotação religiosa, mais precisamente, cristã. Antes da colocação das bombas junto ao corpo dos heróis, um banquete digno de reis. Reis? Não, digno de Jesus Cristo e os seus apóstolos em A última ceia, quadro de Leonardo Da Vinci. Uma mesa repleta de comida e o ambiente arcaico, sob ruínas, mas com a fartura na alimentação lembram bem a obra do artista. Mais que isso, a posição dos colaboradores e futuros mártires na mesa, define bem essa mescla cultural em Paradise Now. Uma mistura — ou melhor, um choque — de religiões, que beira a ironia, pelo caráter conflitante que possuem — e que o filme vai mostrar.

Fazer mais um filme sobre a guerra santa pareceria algo parcial demais: de que lado o filme se apoiaria? Palestina ou Israel? Mas, Paradise Now explora bem a humanização, do lado palestino, do conflito. Israel, os bonzinhos para o mundo, não são tão bonzinhos assim. A Palestina e seus homens-bomba não são tão frios assim. Os clichês esperados de um filme como esse não se confirmam, pois a produção trabalha para mostrar um outro lado, mais pessoal, dessa guerra. O filme seria uma grande reportagem.

Said e Khaled: palestinos, amigos, mecânicos, religiosos e inimigos de Israel; tão amigos que a “honra” de morrer pela terra santa deveria ser feita pelos dois juntos, como homens-bomba, mas juntos, como parceiros na terra e no paraíso. (E tem sentido a ideia de um paraíso no “pós-morte”, se fossemos analisar as trevas sobre a qual vivem os palestinos. A esperança deles está voltada para os céus, já que o paraíso na terra só seria alcançado por martírios. O clima de tensão, com bombas explodindo, é mostrado no começo do filme, quando Suha tenta atravessar a fronteira.)

Os dois, embora religiosamente educados à luz da crença palestina, são pintados como seres humanos comuns, por vezes despreocupados, outras tantas como irresponsáveis. E é assim que, em uma desavença com um cliente, Khaled quebra o parachoque do carro dele, que estava sendo arrumado por Said, e é dispensado de seu serviço de mecânico — fato este que os dois não pareceram se importar.

Aliás, o diretor palestino Hany Abu-Assad extrai bem essa frieza dos personagens, ao mesmo tempo em que sugere o conflito interno vivido por eles. E usa da música, fotografia, cenografia justamente para dar esse brilho ambivalente aos personagens.

Na sequência, Said é procurado por Jamal. A convocação para matar em nome de Deus vem através dele, e Said a aceita. Afinal, ele quer que seja feita a vontade de Deus. Apesar disso, o futuro mártir, que diz estar feliz — “graças a Deus” —, não esboça sentimento algum de felicidade. Imperceptível aos olhos, só mesmo o seu Deus poderia saber mais sobre essa felicidade oculta que não está no sorriso, e que se esconde ainda mais nos gestos apreensivos não obstante a insônia, recheada de ansiedade, do dia anterior àquilo que para ele seria uma luta pela liberdade do seu povo.

Jazia felicidade naquele olhar medroso, incerto e confuso? A morte como suicida é uma honra, mas é encarada consciente e inconscientemente dessa forma? Ou é engolida goela abaixo como um “isso tem que ser uma honra para mim, afinal está no Alcorão”? Temos aqui o conflito religioso — e, por conseguinte, psicológico —, quando a realidade bate de frente com as representações divinas e as mirabolantes histórias que sustentam e permeiam a fé.

Cada um dos escolhidos recebe a visita de um integrante da operação, para garantir que o plano não seja contado sequer aos familiares. O segredo é a certeza do sucesso no plano. Enquanto Khaled brinca no dia anterior ao ataque, Said mergulhava no oceano da confusão e dos conflitos. Então, Said, no ápice de sua insônia desesperadora, decide entregar algumas chaves a Suha, filha de Abu Azzam, um mártir, e se depara com a foto dele. Daí em diante, recai sobre ele todas suas preocupações sobre o futuro do povo e de sua família, por isso ele pergunta qual o sentimento dela sendo filha de um herói, um mártir. Suha parece a porta-voz da paz, escolhida a dedo pelo diretor do filme. (Ela, ao longo da trama, dará a opinião segundo a qual a guerra apenas diminui a palestina aos olhos do resto do mundo, e que a solução ideal seria a conversa diplomática.) Sua resposta é perturbadora ao emocional abalado de Said: preferia ter um pai vivo a um pai-herói morto. O eco das palavras atingiu, com certeza, o espírito de Said e entrou ainda mais em contato com o epicentro de seu desespero.

Antes ainda da materialização do plano, há a gravação do discurso. Diferente de Khaled, Said treme segurando a folha onde estavam escritas as palavras que eram o prelúdio da morte.

Tudo pronto: barriga cheia e bombas ao corpo. Hora de operacionalizar o plano. No caminho, a instrução: matar o maior número possível de soldados israelenses. O diálogo no carro é a explicação de Jamal sobre a sequência de fatos que deveriam acontecer. O último estágio é a morte. E é aí que Jamal sente-se como se tivesse explicado o plano inteiro. Mas, Said pergunta: “E depois?”. “Dois anjos virão buscá-los”, responde Jamal.

O fato de Said perguntar isso reforça ainda mais a ideia da ebulição vulcânica de desespero que ele enfrentava dentro dele.

Eles chegam à fronteira. Mas, a operação dá errada. Os amigos se separam, e Said se perde. Khaled consegue voltar. Said não. Atravessando a fronteira, ele chega até Israel e, num ponto de ônibus, pensa em quantos judeus mataria se entrasse naquele ônibus. Mas não entra. A incerteza ainda reina na sua alma.

As cenas seguintes exploram a perseguição de Khaled a Said. Afinal, Khaled queria completar o plano: “o sacrifício tem que acontecer”.

Khaled encontra Suha. Os dois discutem. A porta-voz dos direitos humanos tenta convencer Khaled, mas ele até aí parece irredutível: “não pode haver liberdade sem luta”. E completa: “Só escolhemos a amargura quando a outra alternativa é ainda mais amarga.”

Os dois amigos se encontram e vão para Israel. Só que Khaled não quer mais. Ele, o decidido, decidiu fácil que queria ser mártir, e decidiu fácil que não queria mais. Às vezes, há mais bipolaridade na certeza que na incerteza.

Então, num ato heróico, Said decide devolver seu amigo ao mundo dos vivos e morrer sozinho, traindo suas considerações iniciais do suicídio em amizade. Mas, não importa, ele — que fez de um ônibus repleto de soldados israelenses o seu passaporte para o céu — está no paraíso.

O filme termina com essa sensação. Não há explosão, não há corpos, não há sangue. Apenas Said e… segundos depois… a tela branca.

Terminou assim a humanização de um dos conflitos que vemos diariamente nos jornais, mas que julgamos à luz do nosso etnocentrismo, da nossa religião “suprema”, e dos nossos ideais de fé. Terminou assim o filme, cuja inclinação política nos remete ao pensamento de uma resolução através da conversa, de algo pacífico.

Do mesmo modo, o filme não tenta nos convencer sobre as causas palestinas. Apenas as expõe.

Também há desespero nos homens-bomba. E o fogo, dentro deles, eclode antes da explosão.

Ficha Técnica:

Título Original: Paradise Now

Gênero: Drama

Tempo de Duração: 90 minutos

Ano de Lançamento (França / Alemanha / Israel / Holanda): 2005

Direção: Hany Abu-Assad

Atores: Kais Nashef (Said), Ali Suliman (Khaled), Lubna Azabal (Suha), Amer Hlehel (Jamal), Hiam Abbass (Mãe de Said), Ashraf Barhom (Abu-Karem), Mohammad Bustami (Abu-Salim)

Sinopse: Amigos de infância, os palestinos Khaled (Ali Suliman) e Said (Kais Nashef) são recrutados para realizar um atentado suicida em Tel Aviv. Depois de passar com suas famílias o que teoricamente seria a última noite de suas vidas, sem poder revelar a sua missão, eles são levados à fronteira. A operação não ocorre como o planejado e eles acabam se separando. Distantes um do outro, com bombas escondidas em seus corpos, Khaled e Said devem enfrentar seus destinos e defender suas convicções.

2 pensamentos sobre “O fogo anterior à explosão

  1. Olá!

    Ótimo texto , me ajudou bastante!
    Muitissímo Obrigada!!

    PAZ A TODOS OS POVOS SEMPRE!!!!!!
    Beijos.

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